Espaço do Diário do Minho

Mentes à deriva
30 Ago 2019
Artur Soares

Temos de reconhecer que o país é rico em acontecimentos trimestrais, mensais e diários. Não em acontecimentos da resolução da vida dos portugueses, como o progresso, a morte da dívida que nos vai matando, o problema do desemprego, as injustiças laborais que a todos adoece, a insegurança do local de trabalho de qualquer profissional ou os serviços públicos onde, qualquer pena de galinha emperra. O país é, tem sido rico em acontecimentos negativos, onde se nota mentes à deriva.

Muito se falou e escreveu estes dias, sobre Salazar e o seu Estado Novo! Não me apercebi que eram salazaristas que falavam e opinavam. Não ouvi ninguém que fosse defensor do homem de Santa-Comba-Dão. Apenas ouvi e li opiniões de democratas públicos, democratas bem colocados quer nos serviços da política e devidamente bem pagos, rechonchudos e muito bem trajados, embora democratas de ocasião, isto é, democratas que não aceitam as opiniões dos outros; democratas que não respeitam o ser ou o sentir do Povo que tem de os suportar; democratas que, se vivos no tempo de Salazar, tudo fariam – com cunhas ou sem cunhas – para serem seus ministros ou seus engraxadores das botas com piso de pneu, que o velho usava.

Estes democratas que nos governam, nunca viram Salazar, nunca entenderam a política de Salazar, nunca ouviram falar Salazar: porque uns eram de tenra idade e outros porque em devido tempo não tinham capacidade – assim como hoje – de servirem o país sob as orientações do homem de Santa Comba.

Salazar foi político? Fez política? Foi Estadista inteligente? Foi e fez o que era necessário. Salazar conhecia como ninguém a desgraça que os democratas da 1.ª república deixaram o país, num curto espaço de quinze anos. Salazar, para os queques de qualquer partido político de hoje, deveria ser admirado, compreendido e respeitado. Não era mentiroso, não era cleptocrata, vivia com o que havia e nunca o país foi empresa que o enriquecesse, como estes agora pugnam.

Porque conheci muito bem “os tempos de Salazar”, consigo dividir esses tempos em duas partes: os primeiros cerca de vinte anos, foi um estadista imprescindível à recuperação económica que a 1.ª república afundou e roubou, em proveito próprio. O segundo tempo de Salazar foi negativo, pois o país estagnou e as suas políticas não eram exercidas com as exigências do pós II Guerra. Fez prisões políticas, enviou muitos para o exílio, criou a PIDE, deu continuidade à Censura da 1.ª república e não foi capaz de resolver a guerra colonial, com uma possível amizade entre todos nós.

A história de qualquer país não tem vento, tempo ou humidade capazes para a anularem. A história só será possível apagá-la, apagando-se a Humanidade. E Salazar é da história e é humanidade. Ninguém pode esconder da história de Portugal uma Amália Rodrigues, um futebolista Eusébio ou um Cristiano Ronaldo. Salazar, quer se goste ou não, quer se admire ou não, já é história de Portugal. E se o Estado Novo existiu, com Salazar à cabeça, pergunte-se aos democratas republicanos quem matou o Rei D. Carlos em 1910 e seu filho e que país criaram durante década e meia em Portugal!

Justificando-se a existência do início do Estado Novo/Salazar – e penso ter-se justificado durante dez ou quinze anos – que razões têm estes maltrapilhos da 3.ª república em contestarem uma Fundação, um Museu ou um Centro de Interpretação do Estado-Novo, como o Autarca do PS de Santa Comba advoga?

São tão inseguros, tão débeis, tão incapazes estes políticos que o “25 do quatro” herdou, que têm medo de que o Povo faça peregrinação ao Museu, ou que ainda surja uma tíbia do velhote dependurada no tecto da Assembleia da República e os dizime. O povo, os povos, têm o direito de saber, de analisar, de estudar a sua história, os seus destacados líderes, quer pela positiva ou negativa. Só dessa forma se é povo, responsável e culturalmente livre.

O Autarca do PS de Santa Comba não faz mais do que a sua obrigação moral e política de ser defensor de um Museu, Fundação ou o que quer que haja, porque trata-se de um Estadista com valores e defeitos políticos – como os mini-estadistas de hoje – nascido na autarquia que lidera. Não vi, não li, nem ouvi Salazaristas a pronunciarem-se contra o mal da II república e muito menos rejeitarem um Museu. O Povo já não tem medo das políticas de há cinquenta anos e, se for aumentar a sua cultura, indo ao Museu do Estado Novo, nunca se poderá chamar peregrinação em prol do salazarismo. Entendo que é melhor visitar o Museu em Santa Comba, que visitar Prisões com os Sócrates no Alentejo ou em qualquer outra zona de Portugal.

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)



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