Espaço do Diário do Minho

Recordar
26 Ago 2019
J. Carlos Queiroz

Recordar é continuar a viver, é caminhar mesmo quando os desafios se tornam mais difíceis de vencer. Na cidade ou no campo, somos confrontados com realidades que nos fazem recordar com alguma saudade os anos de criança ou mesmo adolescente. Ruas e caminhos enlameados, pedras soltas na calçada, bancos de pedra, árvores centenárias, campos de cultivo, carroças ou carros de bois, homens com malas de ferramenta, trabalhadores rurais, alguns pedintes, crianças descalças correndo por todo o lado mesmo rebolando no chão à procura de confeitos no dia dos batizados.

Mesmo o comboio, sujo e velho, que laçava fumo e faúlhas, era então novidade, uma tentação para as pessoas que o queriam ver passar, tal como o senhor Francisco, velho reformado, que também gostava de, pela manhã e ao fim da tarde, se debruçar na cancela da passagem de nível, para enquanto fumava um cigarro, ver passar o comboio antes de ir à taberna situada nas proximidades, beber um copo de vinho branco e comer dois figos. Eram tempos difíceis, de muito trabalho e baixos salários, eram pessoas simples, humildes mas felizes, aquelas pessoas que palmilhavam aqueles caminhos, descalços ou com chinelas (sulipas), que calçavam habitualmente.

E quem não se recorda dos “jornalistas”, ardinas que vinham de sacola às costas nos comboios a apregoar os jornais e distribuíam calendários dos jogos de futebol pela miudagem que os procurava à passagem do comboio, no meio da confusão duma gare cheia de passageiros e mobílias colocadas ali para seguirem mais tarde no comboio de mercadorias!

São estas algumas das recordações da minha terra, que hoje vê passar o comboio sem parar, vê ruas desertas ou onde circulam automóveis, tem ruas de alcatrão, casas abandonadas e também novas urbanizações, tem cafés em vez de tascas, algum comércio e pouca agricultura, autocarros e tratores, pontas de cigarros, ervas daninhas e paredes com pinturas a que alguns chamam arte. Do outro lado da Linha, o recordar é afinal um recuar no tempo, um confronto de realidades diferentes, porventura um sinal de quem já viveu muitos anos…



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