Espaço do Diário do Minho

«No» mundo ou «do» mundo?
20 Ago 2019
João António Pinheiro Teixeira

  1. Eis as duas marcas da Igreja no mundo: presença e diferença. A Igreja está presente «no» mundo para ser diferente «do»mundo. É pela diferença que a Igreja qualifica a sua presença. Se não corporizar uma diferença, que sentido terá a sua presença?

  2. Jesus estabeleceu o princípio que há-de articular a presença com a diferença. É Sua vontade que a Igreja esteja «no» mundo (cf. Mc 16, 15; Jo 17, 15). Mas é igualmente Seu preceito que a Igreja não seja «do» mundo (cf. Jo 17, 14).

  3. A esta luz, dir-se-ia que o nosso lema terá de ser «”no” mundo mas não “do” mundo». Isto significa que, no mundo, o padrão de intervenção da Igreja não há-de ser o padrão seguido pelo mundo.

  4. Aliás, há uma situação paradoxal, a que importa prestar atenção. O mesmo mundo que exige abertura à Igreja dá sinais de ficar incomodado quando a Igreja se parece excessivamente com o mundo.

  5. Tanto há quem reclame uma total integração da Igreja no mundo como há quem lastime certas cedências da Igreja ao mundo. Aparentemente, o mundo exige que a Igreja se torne igual. Mas, lá no fundo, prefere que a Igreja se assuma como diferente.

  6. Qual a nossa alternativa então: «no» mundo ou «do» mundo? Queremos construir uma Igreja «no» mundo ou será que nos resignamos a constituir uma Igreja «do» mundo? O nosso lugar é, sem dúvida, «no» mundo. Mas os nossos caminhos não podem ser ditados «pelo» mundo.

  7. Se o mundo for o critério para a Igreja, é natural que nela se repercuta o que se passa no mundo, incluindo as suas debilidades e os seus delitos. Entre estes encontra-se a cumplicidade que inocenta culpados e a calúnia que culpa inocentes.

  8. Acontece que para esta influência nem o próprio mundo tem paciência. Um crime que no mundo é reprovado, na Igreja torna-se, pura e simplesmente, inconcebível.

  9. Como defende René Laurentin, há que evitar uma «adaptação de camaleão», dominada pelo genérico «mundo» e desligada do «específico cristão». Não se trata de viver em «contra-mundo», mas de propor uma alternativa ao mundo. É o amor pelo mundo que faz a Igreja diferente do mundo.

  10. Sem essa diferença, o mundo não ganha e a Igreja perde. Se a Igreja não oferecer a diferença trazida por Cristo, que serviço prestará ao mundo e que futuro terá como Igreja?



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