Espaço do Diário do Minho

“Guzmán”, “Cervantes” e F. Assis Pacheco
20 Ago 2019
Eduardo Tomás Alves

  1. Guzmán? Mas onde é que isso fica?). Noutro dia assisti, num canal do cabo (da Nat. Geographic Society) a um documentário sobre a incrível “carreira” do multi-milionário traficante mexicano de droga “El Chapo” Guzmán, o rei das “fugas”. E lembrei-me de que ele também é dos muitos hispano-descendentes cujo apelido se reporta aos vários topónimos espanhóis “Guzmán”. Muitos dos que usam o apelido Guzmán (ou, mais raro, o português “Gusmão”) estão relacionados ou descendem de uma família muito nobre e antiga da vizinha Espanha. Que durante a colonização das Américas também enviou alguns dos seus para aquelas paragens transatlânticas. Os quais, lá como na Europa, tinham os seus criados, os seus vassalos, alguns dos quais também passaram a usar o nobre apelido, com ou sem licença dos verdadeiros Guzmáns. Quem pesquisar nas corografias de Espanha, nos índices geográficos e toponímicos, nos livros de História, será informado de que o apelido é de origem geográfica (e provavelmente de raiz germânica, visigótica). O seu significado será “bom homem”, correspondendo ao inglês “good man”; na língua gótica “gods manna”. O povoado de origem ainda hoje existe, no sul da província nortenha de Burgos (a região do famoso El Cid, que era da aldeia de Vívar). Guzmán fica a sudoeste da histórica capital, perto do limite com a província de Valladolid. É no vasto planalto, ca. de 10 kms a NW do rio Douro, na região da velha vila de Roa; a qual fica na margem-norte deste grande rio, entre Aranda de Duero (a leste) e o célebre castelo de Peñafiel. O historial dessa família é longo e diversificado, sendo ainda em algumas regiões, donos de latifúndios. No sul, na província de Huelva (e não longe da alentejana Mértola) há uma vila importante, chamada La Puebla de Guzmán. E 27 kms mais a sul, outra, S. Silvestre de Guzmán, na estrada para Ayamonte.

  2. Alguns portugueses de apelido “Gusmão”).Comecemos de trás para a frente, lembrando esse extraordinário resistente luso-descendente de Timor, o ex-presidente da república Xanana Gusmão (o qual, se bem me recordo, tal como eu também treinou nos amadores da Académica de Coimbra). Outro português deste apelido e que ficará para sempre na História da Aviação é o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o inventor mal sucedido do balão voador chamado “Passarola”, que exibiu ao rei D. João V em 1709. Era nascido em Santos (S. Paulo, 1685) e veio a falecer em Toledo (1724), quando fugia para Paris, de uma intriga palaciana. Um seu irmão, mais novo, foi o importante embaixador e secretário de D. João V, Alexandre de Gusmão (1695, Santos-1753, Lisboa). Porém, o apelido dos irmãos era “Lourenço”, mas foram autorizados por um seu professor, na Baía, a usar o apelido deste; trata-se do célebre jesuíta, escritor e asceta Alexandre de Gusmão (1629, Lisboa-1724, Brasil).

  3. D. Luísa de Guzmán, 1613-1666).Era filha do 8.º duque espanhol de Medina Sidonia e nasceu na “mítica” San Lúcar de Barrameda, Cádiz. Casou com o também 8.º duque, mas de Bragança, em 1633, em Vila Viçosa; o qual se tornaria rei português, após a Restauração de 1640. Ficou célebre a sua sentença pró-independentista de que “mais vale ser rainha por um dia, que duquesa toda a vida”. Foi regente de Portugal após a morte de D. João IV (1656), até à maioridade do seu filho (Afonso VI, de cujas capacidades duvidava). Casou sua filha Catarina com o rei de Inglaterra, Carlos II; e reorganizou o exército. Adversária do notável conde de Castelo Melhor, teve de recolher ao convento de Xabregas em 63, onde faleceu.

  4. O escritor F.Assis Pacheco, parente afastado de Cervantes? ). O que se segue é apenas uma suposição, embora baseada em critérios toponímicos reais. Por muitos já esquecido, Fernando A. Pacheco (1937-95) foi um válido prosador e poeta; e um insinuante apresentador televisivo (esquerdista, é certo). Nunca consegui comprar ou ler 2 livros dele, as “Variações em Souza” (de 87) ou sobretudo os “Trabalhos e paixões de Benito Prado” (de 93); em que o autor fala dos seus parentes e antepassados galegos. Em especial do seu avô (ou bisavô) com aquele nome. Este, era um personagem aventureiro e brutal, envolvido em desordens em feiras e rivalidades amorosas e classistas. Com peripécias de cariz criminal e mesmo cruento, que imagino se possam mesmo ter passado, naqueles perdidos refegos dos montes, onde o “poder de facto” se antecipava e às vezes prevalecia sobre as “justiças do Rei”. Se bem me recordo, o cenário eram várias aldeias e pequenas vilas, na estrada que liga Lugo (aliás, capital da mesma prov. donde descende o tímido e pacífico Fidel Castro…) a Ponferrada (esta, já na prov. de León, bem a norte da nossa Bragança). Se bem me lembro, as povoações referidas seriam na zona de Becerreá e de Baralla. As quais ficam logo a sul do “Val de Neira de Rey” e bem perto do alto rio Navia. Ora, poucos kms a leste desta zona, fica a ainda mais montanhosa pequena comarca de Cervantes; a qual, salvo melhor opinião, é a única que existe com este nome em toda a Espanha. Don Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), o bravo e dedicado militar (mutilado de guerra) que foi genial criador do “Quijote”, era filho de um médico com esse mesmo apelido de origem geográfica. O qual se reporta a “cervos, veados”, e que tem paralelos em Cerveira, Cervães, Cerva, Cervos, Cervatos. Porém, na forma “Cervantes”, só mesmo este, ao lado do Parque Natural dos Ancares Leoneses, mas já na prov. de Lugo, vizinho da terra do avô de Assis Pacheco… Uma coincidência que, penso, poucos terão notado.



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