Espaço do Diário do Minho

Serenamente à espera…
19 Ago 2019
Narciso Mendes

Durante um breve período de férias tive que optar pela TV Espanhola, dado não haver no local qualquer canal português. Daí, ter acompanhado, em 26 de Julho passado, a tentativa de entendimento entre oPSOEde Pedro Sánchez e o UnidasPodemos,de Pablo Iglesias, com vista à investidura daquele em Primeiro-ministro (PM) de Espanha. Uma luta parlamentar travada, dentro dos parâmetros democráticos, no sentido de chegarem a um acordo para a formação de um Governo de esquerda. Isto, porque o atual líder socialista espanhol foi afastando os partidos de direita do seu propósito, tendo por objetivo conseguir uma “geringonça” idêntica à que António Costa e o PS adotaram em Portugal e, segundo Bruxelas, com algum sucesso.

Foram horas a fio de debate na Câmara dos Deputados, repleta de eleitos de todos os partidos políticos, havendo a realçar uma espécie de ping-pongjogado entre Sánchez e Iglesias, ao ponto de a partida quase ter ficado empatada, caso não tivesse rebentado a redeque os separava nas matérias postas em cima da mesa relativas ao trabalho e à Catalunha. É que o líder doPodemosfoi um osso duro de roer quanto às exigências feitas ao putativo inclino do Palácio da Moncloa. Nada comparável a Catarina Martins, doB.E., ou Jerónimo de Sousa, do P.C.P., bastante mais flexíveis e transigentes em relação aCosta – do PS– deixado, até hoje, no Palácio de S. Bento.

Foi uma maratona civilizadíssima, em que cada um expôs os seus pontos de vista numa dialética profunda entre P. Sánchez e os líderes dos outros partidos. Todos foram ouvidos no mais profundo silêncio, sem ruídos de fundo ou sururus. Imperando a linha e os recados baseados nos programas de cada um deles – eleitos pelo povo – e em coerência com o que defendem para os espanhóis. Sendo, dessa forma, que o vencedor (sem maioria absoluta) das ultimas eleições em Espanha acabou por ver-lhe sido negada a segunda hipótese de conseguir o tão almejado acordo “à la izquierda”.

Aliás, as chamadas forças progressistas e correntes independentistas de Espanha que tanto esperavam um compromisso à esquerda, a fim de poderem levar por diante as suas aspirações de terem a seus pés uma grande nação fragmentada, acabaram por ver inviabilizada aquela que seria a sua pretensão-mor. Negada não só pela votação que se traduziu em 124 votos no Sim; 155 no Não e 67 abstenções– após terem sido chamados, um a um e pelos seus próprios nomes, os 346 deputados que declararam o seu voto – mas porque muitos deles temeram tal aventura. Aliás, como fora afirmado pelos líderes doP.P., Ciudadanose Voxque viam nesse acordo a possibilidade de Sánchez vir a pactuar com as correntes que provocariam derrocada daquele país, levando-o para caminhos indesejáveis, desconcertantes com a União Europeia.

Já aERC,da esquerda republicana, vaticinou que há uma abstenção – cabreadae militante – que voltará a inviabilizar, em 23 de Setembro próximo (pp), a investidura de Sánchez, dando como hipótese mais certa a de novas eleições a 10 de Novembro, pp. Enquanto isso, algumas forças da direita – ainda que ele quase as ignore, obcecado que anda com a união a P. Iglesias – disponibilizaram-se para um entendimento por recearem que tudo volte à estaca zero, naquela que será a 3ª tentativa. E se tal acontecer, a TVE lá voltará a abrir o seu telediário com a frase que foi para o ar no final do 2.º escrutínio: “Investidura Falida”.

É que P. Sánchez parece não estar disposto a desistir de um Governo áportuguesatendo enviado, já, uma carta a todos os militantes doPSOEdizendo-lhes que vai forçar a barra em relação a um apoio externo dos partidos de esquerda. Tendo começado a ronda pelo Podemos.Partido que pela voz do seu líder, P. Iglesias, lhe havia dito – na sua intervenção final – que sem ceder a todas as suas pretensões nunca será P.M. de Espanha. Entretanto, no Palácio da Zarzuela, Filipe VI é um rei “pacientemente à espera” de investir em funções o Chefe de Governo do reino.



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