Espaço do Diário do Minho

Aquela mala…
15 Ago 2019
Silva Araújo

1.A mala a que me refiro é uma caixa de madeira, de tampo abaulado, à semelhança dos antigos baús. Conservo-a religiosamente em Gondar, na que foi a casa dos meus Pais. Tem o número 491, que me atribuíram quando fui admitido à frequência do Seminário. Com ele foram marcadas todas as minhas peças de roupa.

Em 29 de setembro de 1947 acompanhei o meu Pai à feira grande de Vila Nova de Famalicão, onde a foi comprar.

No regresso só tivemos autocarro até à Santana, perto de Riba de Ave.

Viemos a pé, já noite, a direito, para Gondar. O meu Pai, com a mala às costas.

Foi nessa mala que, carinhosamente, a minha Mãe aconchegou o enxoval, preparado com a ajuda das minhas duas irmãs mais velhas.

Terminado o curso, em 1959, levei-a para casa. Esgotada a função para que tinha sido adquirida, passou a guardar o que a Minha Mãe considerava serem recordações minhas.

2.Naquela mala revejo os doze anos de Seminário, com o rigor da disciplina e as exigências no estudo. Aí nasceu uma grande camaradagem que se tem cimentado pela vida fora, em reuniões anuais.

Estudei os quatro primeiros anos de Humanidades no Seminário da Rua de S. Domingos (Seminário Menor). Fiz o quinto no Seminário da Rua de Santa Margarida. Aqui integrei o grupo que começou por dormir no pavilhão frigidíssimo onde hoje é uma lavandaria. Os três anos de Filosofia, muito dificultados pelo rigorismo do Reitor, foram no Seminário de Santiago, após o que regressei ao de Santa Margarida, para os quatro de Teologia.

Menino de onze anos, a partir de 14 de outubro de 1947 vi-me, durante muito tempo, separado da família. Só ia a casa nas férias de Natal, da Páscoa e do Verão. Levantava-me todos os dias às 06h00.

No Seminário Menor dormia-se em grandes camaratas a que só íamos à noite. Uma delas, onde dormi durante um ano, situava-se num salão muito frio a que chamávamos Sibéria.

As deslocações no interior do Seminário eram feitas em silêncio e em silêncio era tomada a maior parte das refeições.

Saíamos nas tardes de quinta feira e de domingo. No interior da cidade, de fato preto e chapéu, primeiro; de batina, faixa e chapéu, depois.

Éramos 168 no primeiro ano. O número foi-se reduzindo e quando terminámos o Curso, em 1959, éramos 30. Destes fomos ordenados sacerdotes 29. De todos os companheiros que tive ao longo dos doze anos faleceram, que eu saiba, 75.

No Curso de Humanidades havia exames finais nos terceiro e quinto anos. Em Filosofia e Teologia havia exames finais todos os anos e as principais disciplinas eram lecionadas em latim.

Começámos a usar batina no quinto ano e praticamente só a tirávamos para dormir e tomar banho. Até no recreio se jogava com a batina vestida. Para as idas à Sé eram obrigatórios o uso do barrete e dos sapatos de fivela.

Antes da ordenação sacerdotal recebíamos a prima tonsura e, periodicamente, os diversos graus de ordem: ostiário e leitor, exorcista e acólito, subdiácono, diácono e presbítero. Cada um deles era precedido de um exame sobre determinadas matérias e de um retiro.

A mala foi sempre a minha companheira.

3.Aquela mala é hoje, para mim, um símbolo. Lembra-me todo o esforço dos meus Pais e o apoio que as minhas Irmãs sempre me deram.

É um cofre de inesquecíveis e diversificadas recordações e grandes amizades.

É um coração enternecido que diz obrigado a todos os que contribuíram para a minha formação. Um coração que pede desculpa, consciente de nem sempre ter feito o que e como devia.

É um hino de louvor ao poder e ao amor de Deus e de confiança na Sua infinita misericórdia.

É uma prece muito sentida por familiares e companheiros que o Senhor levou para si.



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