Espaço do Diário do Minho

“Haja capacidade auditiva”
5 Ago 2019
Narciso Mendes

Durante os nove meses em que ocupei o ventre da minha santa mãe não me recordo de nada; não sei nada; nem me lembro de ter ouvido o que quer que fosse. E mesmo depois de ter nascido, aí pelos meus primeiros dois anos de vida não existe na minha memória um resquício do que quer que seja. Há, por isso, como que um apagão total na minha convivência familiar e social desse período. Os meus pais procuraram criar-me com todo o amor e carinho; auxiliaram-me; protegeram-me; deram-me os melhores conselhos e as dicas que começaram a entrar pelos meus, ainda tenros, ouvidos. Procurando transmitir ao meu imaturo e frágil cérebro as mensagens que ao longo do tempo, tratou de armazenar a fim de serem rebuscadas sempre que as situações, ao longo da vida, exigissem respostas.

Mas a fase em que o meu sistema auditivo começou a assimilar, de forma mais intensa, os sons que neles iam entrando foi com as brincadeiras entre companheiros de infância, na escola primária, doutrina e nos escuteiros. Aí, todas as matérias escolares, religiosas e atividades me eram debitadas de forma muito agradável. Apenas ao dormir é que uma espécie de cortina descia sobre o meu espírito, transportando-me a um mundo de sonhos. No entanto, à medida que ia crescendo, a coisa foi sendo cada vez mais complicada ao ponto de começar a sentir alguns medos e receios pelo que me era constantemente soprado ao ouvido.

Começaram, então, a falar-me em ter de ir para a tropa. E nesse sentido, ir-me preparando para – uns anitos mais adiante – servir a Pátria, como tantos outros cidadãos portugueses da minha série. Nessa altura, as notícias que lia e ouvia eram de incentivo ao cumprimento do serviço militar obrigatório, sem alternativa. Pelo que não havia por onde escapar, pois se o fizesse teria a alcunha de cobarde, refratário e antipatriota. Assim, se apelidava o jovem cidadão aí por altura dos anos 50 e 60, que se escusasse a tal obrigação. E logo que surgiu a guerra nas colónias portuguesas, em África, todos eram aproveitados, de tal forma que até os menos escorreitos lá iam parar.

Nessa fase da guerra colonial, encharcados ficaram os meus ouvidos com tanta propaganda contra o terrorismo em Angola e noutras colónias, para o que se fizeram hinos e canções a incentivarem os soldados ao combate. Por isso, fui conhecendo alguns deles que por valentia – na frente de batalha – foram dignos de louvores e até promovidos de soldados à classe de Sargentos. Isto, enquanto ouvia notícias dos que regressavam estropiados ou mortos. Tendo chegado, finalmente, a minha vez de assentar praça, o que fiz, naturalmente, sem hesitar.

Porém, logo que chegou a mudança de regime em Portugal uma outra linguagem fui ouvindo. E tudo quanto, outrora, me assomara aos tímpanos passou a ser recriminado, ao ponto de me convencerem que de nada terá valido tudo aquilo. Acabando por me dizerem que, afinal, havia sido levado ao engano. Pelo que comecei a ter, daí, a perceção de que o tal terrorismo – que combatêramos em África – não passava de uma mentira. Fiquei confuso. Mas mais perplexo me vi, quando me foi dito que os chefes dos tais “turras”, passariam a ser os donos e senhores desses territórios africanos a fim de enriquecerem.

A confusão que se instalara em mim, devido às lutas que se travam pelas bonomias entre os que vivem da política nacional, acabou por ficar. Ao ponto das minhas pobres orelhas ficarem encharcados com tanta conversa fiada. Porém, temo bem que tenhamos de continuar a ouvir esse fastidiosocliché– de sempre – de que a maioria dos políticos são fiáveis, sérios e que zelam, acima de tudo, pelos interesses do país e do seu povo.

Ai são? Veja-se o recente caso de um negócio – entre amigalhaços – dos kits e golasantifumo, por via dos incêndios, para o programa “aldeia segura”, mais uma triste golpada nesta democracia a precisar de que hajacapacidade auditivanos portugueses para assimilarem tão estapafúrdias explicações.

Destaque

Temo bem que tenhamos de continuar a ouvir esse fastidioso cliché – de sempre – de que a maioria dos políticos são fiáveis, sérios e que zelam, acima de tudo, pelos interesses do país e do seu povo.



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