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A bracarense Mara Pereira é portadora de um angioma facial e resolveu, este ano, organizar um encontro nacional de portadores de angioma, em Braga.

Ana Marques Pinheiro
28 Jul 2019

Criadora da página “Angioma – Flor de Pele” no Facebook, dedica-se a desmistificar o que muito consideram um “problema”.


Diário do Minho (DM) – O que é um angioma?

Mara Pereira (MP) – Um angioma é um tumor benigno constituído por uma proliferação das células dos vasos sanguíneos (hemangioma) ou dos vasos linfáticos (linfangioma). Pode-se desenvolver em diversas partes do organismo. No meu caso, ficou no rosto.

DM – Como foi a tua relação com o angioma ao longo dos anos?

MP –No início ou quando me comecei aperceber dos olhares e comentários, não foi fácil! Ainda hoje me pergunto como dos seis aos nove anos, consegui diariamente enfrentar uma rua num trajeto escolar, onde havia uma jovem que sistematicamente dizia: «Vem aí o monstro… fujam». Quando os meus pais aos 12 anos me fizeram ver que podia ser feliz mesmo com esta diferença, tudo mudou a nível de aceitação e forma de estar na vida.

DM – De que forma a tua família e amigos lidavam com a situação?

MP – Lidaram sempre melhor que eu. Foram o meu pilar, o meu abrigo e a minha aprendizagem enquanto aceitação. Foram os meus mestres. Fizeram sempre tudo para me sentir bem e mostraram-me o melhor caminho. Tinha amigas de infância que quando sentiam o meu isolamento, iam-me buscar a casa para passear com elas. Tiravam-me da zona de conforto. Os meus pais nunca me esconderam, mesmo quando eu me protegia atrás deles, desviavam-se para eu ser vista… Na altura eu não percebia! Hoje, agradeço-lhes profundamente porque entendi bem a lição.

DM – Alguma vez tentaste fazer algum tratamento para atenuar o angioma que tens no rosto?

MP – Sim. Fiz sete sessões de laser para atenuar cor e dimensão. Um tratamento específico para angiomas. E fiz isso porque aos 18 anos alguém me disse que não conseguia namorar para mim, porque tinha uma mancha na cara. 

DM – Como foi esse processo?

MP – Foi um processo difícil de dois anos e meio, onde a recuperação desse tratamento, passava por ficar com a cara queimada. Olhava para o espelho e quando via a mancha muito mais clara, não me identificava e por isso parei o tratamento. Ficarei assim até morrer.

DM – Quando decidiste criar a página no facebook “Angioma flor de pele?”

MP – Desde pequena que sempre quis saber se era a única assim ou se havia mais gente com um angioma facial. Não via ninguém, sentia-me única e sempre senti curiosidade em saber se haveria mais portadores. A juntar a isto, em finais de 2016 após uma entrevista televisiva sobre a minha aceitação, a apresentadora ao se desligarem as câmaras do direto e em forma de despedida, disse-me: «Porque não transformas a tua força e inspiração em algo por pessoas com Angioma?». Ponderei um tempo e decidi fazer algo.

DM – Qual foi o teu propósito ao criar a pá-
gina?

MP – O propósito principal para além de os encontrar a nível nacional é de os ajudar a se aceitarem como são. Vencer a barreira dos complexos ou vergonha, por não termos o dito padrão de beleza. Ajudar a sociedade a aceitar que um angioma é só um detalhe.

DM – Conseguiste chegar a mais pessoas portadoras de angioma?

MP – Sim! Neste momento tenho gente de todo o país. Desde Portimão até ao Alto Minho. É tão bom e gratificante vê-los chegar à página e assumirem nem que por mensagem privada: «Estou aqui». Já recebi inclusive, mensagens do Brasil e o meu objetivo era só nacional.

DM – Qual foi a história que mais te surpreendeu?

MP – Foi a do Santiago, de Portimão, que nasceu meses antes da minha entrevista televisiva e que tem um angioma exatamente igual ao meu. A mãe estava um pouco reticente porque ter um filho com uma marca de nascença sem contar, deixa qualquer pai e mãe, com mil e um pensamentos. Ela ficou surpresa quando após ligar a televisão, viu uma pessoa com uma mancha igual à do filho e que estava a falar para todo país sobre a sua aceitação enquanto portadora de angioma facial. Ficou incrédula porque sem querer, a televisão ou entrevista, mostrou-lhe que é possível viver e ser feliz, mesmo com esta diferença. Procurou o meu contacto e encontrou-me pelas redes sociais. Estabeleceu logo contacto e foi das primeiras mensagens que recebi que mais me emocionou. Dizia: «Estava sempre a pensar em como seria a felicidade do meu filho e se ele iria encarar bem esta diferença perante uma sociedade exigente. Pensei em não o expor muito. Depois de ver a aceitação da Mara, a falar para todo país sem medo nem complexos, hoje o que mais quero é que o meu filho saia e seja feliz como a Mara. Jamais o vou esconder!»

DM – O que as pessoas mais perguntam ao encontrar a página? Quem mais te “procura”?

MP – Quem mais me procura são pais com filhos portadores. Perguntam como lidei com tudo até esta idade. Têm sempre receio que os filhos sofram com comentários e olhares menos próprios. Depois chegam os portadores e dizem: «Aqui estou!»

DM – De que forma é que achas que podes ajudar as pessoas?

MP – Por quebrar a barreira da vergonha e fazê-los sair. Já fiz vídeos e partilhei na página, com o objetivo de fazer entender o que é realmente um angioma. Gostava que a população no geral, quando visse alguma pessoa com uma manchinha, não perguntasse: «O que tens? Foste queimado?» Queria que vissem logo o que realmente têm –  um angioma.

DM – Quais os próximos passos para o projeto?

MP – Encontrar o maior número deles, é o passo mais importante ao qual estou ainda focada. Ainda não encontrei todos. Existem muitos mais e nem sonham que anda alguém à procura deles.

DM – Decidiste organizar um encontro para os portadores de angioma. Como vai funcionar?

MP – Gostava que fosse um marco nas nossas vidas. Quero abraçar cada um deles nem que sejam 1000. Terá início às 11h00 do dia 12 de outubro, para aproveitarmos o dia ao máximo. Dependendo do número de confirmações, estou a pensar em duas alternativas. Uma mais reservada com almoço, palestra e música ao vivo. Ou, um mega encontro numa das ruas da cidade, com algumas surpresas à mistura. Gostaria que a cidade os recebesse com alegria. Nunca se realizou nenhum encontro deste género, será o primeiro.

DM – Porque decidiste fazer este encontro e porquê em Braga?

MP – Primeiro por ser um sonho de miúda saber se há muitas pessoas como eu. Depois reuni-los no mesmo espaço e ajudar muitos a vencerem a barreira dos complexos. Sei o que muitos sentem e alguns nem saem por medo dos olhares e comentários. Tirá-los da zona de conforto como um dia me tiraram, será uma vitória. Escolhi Braga por ser a minha cidade berço e por ser um local milenar, com gente que recebe muito bem.

DM – A longo prazo, qual é o maior sonho?

MP – Um encontro internacional de portadores de Angioma.




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