Espaço do Diário do Minho

Benjamim Araújo, um exemplo de fé

24 Jul 2019
Maria Helena Araújo

Creio que um dos pilares da educação está no exemplo. Não me vou estender na procura de exemplos porque a lista seria tão vasta, desta forma, fixo-me em Jesus de Nazaré. Fiquei espantada ao descobrir que Jesus, antes de falar para o mundo, passou pelo mais dramático teste de stresse: “Quarenta dias no deserto sem comer, e no ápice do esgotamento físico e mental, ele conseguiu pensar: nem só de pão vive o homem.” A que nutriente se refere? Físico ou metafísico?

Pináculo do tempo e estrela religiosa, em Jesus encontro três competências sociais essenciais que, a meu ver, fortaleceriam o edifício da educação: liderar com compaixão, influenciar com benevolência e comunicar com visão. A compaixão é reconhecida como uma grande virtude por todas as confissões religiosas e por numerosas filosofias. Mas não se limita a ser uma grande virtude. A compaixão é também a causa do maior nível de felicidade alguma vez medido e uma condição necessária para a mais eficaz forma de liderança conhecida, não descurando as suas componentes cognitiva, afetiva e motivacional. É uma coisa incrível!

Recordo o meu pai como um homem íntegro, sensato, calmo, afetuoso e com uma humildade intelectual, apanágio daqueles que são aquilo que são! Usava muito mais do que o método socrático para fomentar perguntas: usava a arte da dúvida como um bisturi para penetrar em camadas mais profundas dos textos e livros que lia, para os reviver, para dissecar as suas implicações e para perceber os seus limites e capacidades. Tudo isto para ver os factos com a menor contaminação possível, razão pela qual não se poupava, questionando as suas proposições a cada instante. Queria ver o mundo como ele é, não como gostaria que fosse.

Perguntei-lhe um dia se era feliz e respondeu-me: “Sabes o que é a felicidade, minha filha?” Na altura achei desconcertante responder-me com uma pergunta, ainda que não inédita esta forma de argumentar, fez-me pensar, sair da zona de conforto, destabilizou-me. Creio, hoje, que a melhor das educações é a autoeducação. Banalizou-se a felicidade assim como se banalizaram as palavras, os gestos, as emoções e as relações. Mascarámo-nos em causas, sem lutar por elas, educamos sem educação, falamos ignorando o que dizemos, queremos ser felizes desconhecendo a felicidade. Atrevo-me a dizer que o homem verdadeiramente feliz é aquele que, entrosado e conectado com o existencial, estabelece com ele relações de amor, bondade e compromisso, mas aprendi contigo pai e acredito, que só somos verdadeiramente felizes estabelecendo relações ajustadas com o transcendente e o transcendental, compreendendo que é o nosso verdadeiro ser, a nossa ôntica natureza, que o exige. De outra forma, a nossa existência perder-se-ia no tempo. Compreendo hoje, melhor do que ontem, que o nosso ôntico ser, o uno, enquanto ser existencial, exige ajustamentos. Evoluímos ao nível científico e tecnológico, mas estagnamos ou mesmo regredimos ontologicamente: não conhecemos verdadeiramente a nossa ôntica natureza resultando comportamentos e atitudes desajustadas aquilo que verdadeiramente somos. Sobrevivemos à saudade dos nossos entes queridos porque o nosso verdadeiro ser assim o exige, de outra forma, a felicidade apagar-se-ia no horizonte imperando a dor. Sem bondade e amor, o céu seria o inferno, e sim, só nos superamos com amor, e esta foi a melhor herança que nos deixaste pai! Privar com os nossos pais é a melhor forma de lhes agradecer a dádiva da vida, e sim pai, privar contigo foi o maior privilégio que tivemos. Todo o aprendiz necessita de um mestre. 

Ó tempo, em ti me supero e em ti me perco! Por ser fascinante e efémero, de paz e guerras, alegrias e tristezas, presenças e ausências, devemos repensar a noção de tempo e do tempo. Termino com um pequeno excerto sobre o tempo de Benjamim Araújo: “Ó tempo, tu és a porta que se abre à nossa eterna ventura ou desventura. É dentro de ti que o homem por sua vontade se ganha ou se perde eternamente. É em ti que o homem, se quiser, pode com os seus dons louvar o Eterno e recalcar as forças do inferno. Tu vales, ó tempo, o que vale o meu fim. É contigo que o preparo. Tu és o crente feliz junto de Deus e o condenado envolto nas chamas do inferno. Se todos os bens da terra têm valor porque satisfazem as necessidades corporais, tu és muito mais porque és a torre da alma para Deus. Tu vales, ó tempo, o que vale o meu fim. É contigo que o preparo.”

   

 

 



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