Espaço do Diário do Minho

Sem peias e atrelados
16 Jul 2019
Luís Martins

A próxima campanha eleitoral já começou. A destempo, mas começou. E foi o partido do governo que arrancou primeiro. Os outros, para não ficarem a trás, lá vão comentando, mais do que elencando propostas, os anúncios para a nova legislatura do partido que segue à frente. Até há sondagens optimistas ou nem tanto. E foram feitos os primeiros pedidos, agora já sem nenhuma timidez, sendo que o último se pode considerar afoito, comparado com os anteriores, tendo em conta a ambição do novo objectivo: foi pedida, pela voz de uma alta responsável, uma maioria “absolutamente confortável”. Uma nova forma de dizer que se quer governar sozinho, sem peias e atrelados, gerir com agenda única, sem ter que negociar isto e aquilo e fazer os jogos de cintura de agora e tudo o mais que não é pouco. Dito de outra forma, o PS procura governar sem “nós” os “nós” que o país enfrenta e a que a governação devia dar resposta e não deu. Mas, ao seu ritmo e maneira, como deseja um recém divorciado. Sim, se a ambição se concretizasse, o casamento  dissolver-se-ia com a ajuda do juiz soberano que é o povo.

Só que o juiz soberano é o somatório de vários milhões de impressões, umas fundamentadas, outras nem tanto, mas que valem como as mais e melhor informadas. Quem vai a concurso posiciona-se ao seu jeito, com as ferramentas, os simpatizantes e correligionários que consegue arregimentar, com a obra feita ou propostas da que seria feita e os projectos e promessas que tem para o país. A comunicação social é absolutamente fundamental neste processo, informando e colocando em confronto as ideias e perspectivas dos concorrentes, dando voz a todos, mas sem tomar posição. Joga-se aqui a passagem das mensagens que as forças partidárias pretendem fazer chegar ao grande público eleitor e o contraditório apresentado pelos opositores. 

A opinião publicada também tem a sua influência, mas são as obras, os projectos, a coerência política e a credibilidade dos concorrentes que são determinantes para as decisões individuais no dia das votações. Quem acompanha a vida política vai aderindo ou não às opções dos agentes políticos, tomando posição sobre as mesmas e formando a tendência do seu voto. Quem não o faz habitualmente, vai decidir mais por simpatia, mais pelo coração do que pela razão e é sobretudo para estes que o marketing político intervém. No terreno, cada um pode influenciar. Na circunstância em que vive e com os argumentos que formou. 

Como cidadão, como interpreto o mandato do actual governo? E o da oposição? Começo por esta. No princípio, sem razão para o fazer, gastou o tempo a questionar a legitimidade governativa, sem assumir os erros passados. Agora, de uma forma geral, tem sido pouco acutilante, num período em que tem argumentos para contraditar a acção governativa e o posicionamento dos partidos mais à esquerda do espectro parlamentar. E sobre o actual governo? Beneficiando da inacção da oposição, tem criado uma imagem de saneamento dos problemas que não existe. E não se pode dizer que lhe faltou estabilidade bastante nem que os atrelados alguma vez tivessem posto em causa ou até que fosse previsível a resistência à realização, por exemplo, do investimento em diversos sectores sociais que dele carecem. Antes pelo contrário. Refiro-me, em concreto, ao investimento na educação, na saúde e nos transportes. Não colhe a argumentação de que os problemas que persistem e tolhem o desenvolvimento de Portugal se devem ao governo de Passos e Maria Luís Albuquerque. O tempo é o de Costa e Centeno. Se o investimento não foi feito antes – e isso foi tão criticado, e bem, pelo PS – devia ter sido feito agora. Sem mais críticas, porque isso, todos percebemos, é jogo político e não trás qualquer solução, apesar de nos poder toldar a percepção sobre quem é, na realidade, responsável. A verdade é que, neste capítulo do investimento público, o partido que hoje nos governa falhou ainda mais do que o anterior. O PS não merece, nem é desejável, que governe sozinho. 



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