Espaço do Diário do Minho

A democracia parlamentar
 e a publicidade

16 Jul 2019
Beatriz Lamas Oliveira

O meu filho tinha 10 anos e desconfiava imenso da publicidade. Pensava ele e eu também, que quando uma coisa é mesmo boa, vale por si, não necessitamos de ser convencidos, isto é, não queríamos ambos ser atacados, de meia em meia hora, pela repetição de que «a coisa tal, é boa».

Ambos nos sentíamos perseguidos por repetições do género: «os automóveis XY são excelentes porque a “Carla” também comprou um». Sentíamo-nos perseguidos e éramos alérgicos. Detestávamos  as “Carlas” figurativas que nos tentavam indicar como modelos de sábias escolhas.

Publicita-se a própria democracia. A democracia parlamentar. A Democracia, com «D», para mim, era aquele sistema de representação da vontade do povo, que eu aprendi na História. Era o método de convivência que os Gregos utilizavam diariamente na cidade para exercerem, a sua vontade e o seu discernimento. “Os Gregos” é uma expressão que nos remete  para a antiguidade e a mitologia. Não conheço nenhum Deus, da mitologia grega, que tenha começado por ser escravo. E a sociedade grega era uma sociedade democrática e esclavagista. Os escravos, na Grécia, mesmo quando mais letrados do que os seus senhores, não tinham voto na Democracia. Não tinham representação na cidade. A Democracia grega não era perfeita.

Nietzsche, na Dança sobre o Abismo, lembra que os aristocratas nasceram do povo. Havia pessoas antes de haver aristocratas. Os aristocratas deviam estar agradecidos ao povo, às famílias de onde nasceram. E o povo antigo deve ter tido orgulho nos seus filhos que ascenderam à aristocracia. 

O que é que isto tudo tem a ver com o meu filho, e a publicidade que nos era motivo de riso quando ele tinha dez anos? Muito. 

Ambos, ainda hoje, não gostamos que nos vendam gato por lebre. 

A democracia parlamentar está a transformar-se num produto que é necessário vender. 

Fazem-lhe demasiada publicidade. Dizem que é um bom sistema para a expressão da vontade do povo. É um sistema em que, de vez em quando, se pede ao povo para ir votar. Nos intervalos entre o «ir votar e voltar a casa» o povo é representado por aqueles em quem votou. Os representantes do povo representam-no bem? Os representantes do povo são o espelho do povo? Cumprem as promessas com que se publicitaram?

O povo teve e tem filhos aristocratas. E os aristocratas, que seriam em teoria os melhores, com o andar dos anos, esquecerem de quem eram filhos. E o povo, desiludido, distanciou-se dos aristocratas. 

A monarquia teve o seu fim violento em 1910 em Portugal. Se os representantes do povo, na democracia parlamentar, o não representarem (ou o enganarem) o povo demorará mais ou menos tempo a entender que foi traído. Mas descobrirá. Com ou sem ajuda da publicidade.

A publicidade ilude. Por quanto tempo?



Mais de Beatriz Lamas Oliveira

Beatriz Lamas Oliveira - 28 Set 2019

Caros amigos, Greta Thunberg e outras crianças defensoras do clima estão sob ataque. Novas investigações acabam de revelar que poderosas redes de grupos que negam as alterações climáticas e figuras da extrema direita americana e não só estão a espalhar notícias falsas sobre a menina de 16 anos que inspirou milhões a manifestarem-se. Desde lhe […]

Beatriz Lamas Oliveira - 22 Set 2019

Estive duas semanas em Amesterdão em 2009, no mês de Maio. Num domingo de futebol a policia teve de fechar todo o trânsito, a cidade ficou sem transportes cerca de seis horas. Uma horda de gente onde predominava o sexo masculino invadiu as ruas que foram vandalizadas e cobertas de lixo. Esta multidão heteroclita teria […]

Beatriz Lamas Oliveira - 16 Set 2019

As imagens de violência são uma constante nos telejornais. Hora do almoço e hora do jantar, são horas de desassossego para quem quer ter alguma informação sobre o que se passa no mundo exterior. As notícias são dadas de forma a que se misture factos do dia a dia político, futebol, crime e violência. Claro, […]


Scroll Up