Espaço do Diário do Minho

Direito à greve, mas…
15 Jul 2019
Paulo Fafe

Custa-me muito ver as filas de pessoas que precisam de renovar a carta de condução, o cartão de cidadão ou satisfazer os requisitos da emigração. Alguns vão para lá de madrugada para apanhar uma senha de atendimento. Uma situação de mundo atrasado que a tecnologia ainda não resolveu apesar das promessas nesse sentido. Mas custa-me muito mias ver pessoas que vieram de longe para serem tratadas nas suas doenças, algumas a necessitar de tratamento inadiável, e não serem atendidas porque os profissionais de saúde estão de greve. A greve é um direito constitucional, mas este direito não se esgota neste direito. A greve para ser um direito tem de se apoiar no direito moral, isto é, tem de ter uma razão de fundo social que a sustente. Não pode ser um arrufo ou um anseio de grupo, quiçá um desejo, mesmo quando tenha a cobertura sindical. Quando a greve se faz sem esta razão de ser, vira arruaça, quando não sinal de vida dos sindicatos. A greve dos profissionais da saúde prejudica quem não pode prejudicar nem deve ser prejudicado. Há razões humanas que não permitem que os interesses de alguns se sobreponham ao direito à vida. Mas, por outro lado, esses profissionais têm de lutar pelos seus direitos, isso é inquestionável. Como conciliar as duas questões? Para mim o governo tem de compreender que quem espera que lhe peçam, na verdade não dá, cria uma reivindicação. A primeira prioridade de cada um de nós é a saúde e só depois vem o amor. Sabemos que os profissionais de saúde não podem ser substituídos por indiferenciados. Mas é bom não perder de perspetiva que, ainda que eles não sejam deuses, como alguns ainda pensam que são, ainda que sejam pessoas altamente qualificadas como são, outras pessoas há que também ocupam o topo da pirâmide. Essa condição não lhes pode servir de base para ter o céu. Olhem para baixo e lá verão muitos no “inferno”. Haja humanismo. Nisto não pode haver nem mitos nem monstros. Não entendemos como um magistrado com dois anos de serviço ganha mais que um general ou como uns e outros ganham mais que um médico, ou como pode um enfermeiro estar nas condições de pagamento a nível da mediania. Há reajustamentos a fazer. Deve-se desencadear uma greve pondo em risco a vida dos doentes? Claro que não. Então, se o governo é cego e surdo quanto às justas reivindicações destes profissionais, que meios têm eles para lhes abrir os olhos e os ouvidos? Mas o que é justo? Justo é aquilo que a sociedade considera como devido a cada classe profissional. Porque será que não há nenhuma acrimónia contra as greves destes profissionais? Não há porque estas greves têm compreensão social e só a sociedade diz quem somos e quanto valemos. Então qual é a luta ? Uma só: a de virar a sociedade contra o governo. Pode esta estratégia demorar tempo, mas a água que fez estalactites também furou a pedra dura. A sociedade entende que a saúde não pode ser adiada como se adia um transporte, um exame escolar, uma vigilância , ou qualquer abstenção de serviço público, e sabe que a vida, seja qual seja a conceção que tenhamos dela, a sua preservação é um direito muito maior que o direito laboral. A greve, se tiver de ser, nunca deverá ser contra os doentes, mas sempre contra o governo. A melhor arma reivindicativa a utilizar não é o da abstenção ao trabalho, nem o cumprimento de serviços mínimos, é o da desmoralização da governança. Profissionais de saúde são soldados no campo da morte. Entre salvar uma vida, ou salvar uma greve, o juramento de Hipócrates responde assim: A saúde do meu doente é a minha primeira preocupação.



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