Espaço do Diário do Minho

Branqueamento de imagem
14 Jul 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Uma breve afirmação proferida há quinze anos pelo então presidente e director-geral da TF1, o canal de televisão mais visto em França, suscitou uma imensa e prolongada controvérsia: “Sejamos realistas: essencialmente, o trabalho da TF1 é ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto”. Para se fazer entender devidamente, acrescentou: “Ora, para que uma mensagem publicitária seja percebida, é necessário que o cérebro do telespectador esteja disponível. As nossas emissões têm por vocação torná-lo disponível: divertindo-o, relaxando-o, para o preparar entre duas mensagens. O que nós vendemos à Coca-Cola é tempo de cérebro humano disponível”.

O inesperado na asserção de Patrick Le Lay foi a crua franqueza de propósitos. O presidente e director-geral da TF1 não disse algo que não se suspeitasse ou soubesse. Inúmeros estudiosos dos mediatinham, antes, subscrito denúncias mais ou menos contundentes da manipulação dos consumidores, tornados reféns do marketing. Com candura ou com cinismo, conforme se preferir, e sem floreados, Patrick Le Lay veio confirmar que assim era.

O episódio amplificou um debate sobre o que ficaria conhecido como “a economia da atenção”, título de um livro de Yves Citton, professor de Literatura e Media. Em A economia da atenção. O novo horizonte do capitalismo?(Paris: La Découverte, 2014) explica-se que a atenção passou a ser, na “nova economia”, o bem mais raro e a mais preciosa fonte de valor. A designação “economia da atenção” torna-se popular. As críticas à manipulação da atenção, essas, são menos conhecidas. E, todavia, têm sido cada vez mais pertinentes.

Um dos diagnósticos mais sombrios sobre a questão da atenção é da autoria de Ars industrialis, uma associação sediada em Paris: “O sistema atencional encontra-se em ruínas”. A razão: “Os mediade massas impuseram que os critérios do marketingcanalizem hegemonicamente a atenção pelas psicotécnicas e pelos psicopoderes assaz revolucionários que as tecnologias de alucinação audiovisual tornaram possíveis”.

Dinamizada por filósofos como Bernard Stiegler, Georges Collins, Marc Crépon e Catherine Perret, alguns deles também críticos de arte, a associação considera que “a nossa época se encontra ameaçada, no mundo inteiro, pela circunstância de a ‘vida do espírito’, para usar as palavras de Hannah Arendt, se ter inteiramente submetido aos imperativos da economia de mercado e aos imperativos de lucro das empresas que promovem as tecnologias do que é designado por indústrias culturais, as indústrias de programas, os media, as telecomunicações, e, finalmente, as tecnologias do saber ou tecnologias cognitivas”.

Em “Formação e destruição da atenção”*, Ars industrialis reprova aqueles que têm a responsabilidade de canalizar e monopolizar a atenção dos que se tornam exclusivamente consumidores, na medida em que os seus tempos de consciência se encontram deformados e literalmente esvaziados. Como a consciência se tornou “tempo de cérebro disponível”, o trabalho de formação da atenção, assegurado pela família, pela escola e pelo conjunto de estabelecimentos educativos, é sistematicamente desfeito para se produzir um consumidor desprovido de qualquer capacidade de autonomia, tanto moral como cognitiva, quer se lhe chame consciência ou livre arbítrio.

O que importa é capturar a atenção, atrelando-a à insignificância. Os engodos multiplicam-se e aperfeiçoam-se nos ecrãs, mas não apenas neles. Também nos quiosques a irrelevância ou a estupidez se esforçam por berrar na capa de cada uma das revistas portuguesas sobre mexericos e afins. O engodo para prender a atenção mais repugnante é, nestes dias, o que se encontra na capa da revista Cristina, da apresentadora Cristina Ferreira, ela própria um isco televisivo para fazer vender vários produtos que, como no caso da publicação, ostentam o nome dela. A capa exibe uma mulher que pertence ou pertenceu ao que se costuma designar por jet set. Agora cumpre uma pena de 23 anos de prisão por ter mandado assassinar o marido rico, de quem teve um filho. Exibida como se tivesse saído de uma produção de moda (comstyling, maquilhagem e cabeleireiro, como indica a ficha técnica), a prisioneira encena-se lacrimejante para um conjunto de fotografias e para “a conversa” com a rapariga que dá o nome à revista. Como este género de revistas tem pouco escrutínio, não será sancionada a infâmia do branqueamento da criminosa e da transformação do assassinato brutal que ela encomendou num modo justificável de resolver um diferendo.

Mas uma sociedade decente deve indignar-se ou, pelo menos, envergonhar-se sempre que a sua atenção é capturada por delinquentes socialmente bem posicionados que pretendem usar qualquer palco – uma capa de revista, um estúdio televisivo ou seja o que for – para lavar a sua imagem.

*http://www.arsindustrialis.org/formation-et-destruction-de-lattention-1



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