Espaço do Diário do Minho

As síndromes demenciais no idoso
12 Jul 2019
Catarina da Costa Campos

À medida que envelhecemos é normal a ocorrência de um declínio gradual das capacidades cognitivas (como a memória, capacidade de atenção, rapidez no planeamento de tarefas, etc). No entanto, pode acontecer que essas dificuldades sejam superiores às esperadas para a idade, e quando estas se associam a dificuldades no desempenho de atividades do dia-a-dia com perda de autonomia, podemos estar na presença de uma síndrome demencial.

Existem vários tipos de demências que podem ser causadas por diversos fatores e que se manifestam de diferentes formas. A dificuldade de memória é o sintoma mais conhecido, mas não é o único, e muitas vezes nem sequer o primeiro a surgir.

Frequentemente as demências vêm acompanhadas de outras manifestações psiquiátricas que podem ser bastante perturbadoras. Entre essas manifestações temos as ideias delirantes, ou seja, ideias erradas que dominam o pensamento do doente e que não cedem à argumentação lógica sobre a sua falsidade. Muitas vezes estas envolvem ideias de desconfiança dirigida aos familiares e outras pessoas próximas; de que se irá ser abandonado ou institucionalizado; de roubo (sendo frequente os doentes perderem objetos e acusarem outros de os esconder ou roubar); de que as outras pessoas tem intenções maldosas de os prejudicar; entre várias outras temáticas possíveis. Outra manifestação relativamente comum nalguns tipos de demências são as alucinações, ou seja, ver, ouvir ou sentir coisas que não existem.

Quando o doente apresenta ideias delirantes ou alucinações pode associadamente manifestar alterações do comportamento como resposta às mesmas, o que é compreensível pois a pessoa pode ficar muito assustada nestas circunstâncias. No entanto as alterações do comportamento com a adoção de condutas impulsivas (agir sem pensar), desinibidas ou mesmo agressivas podem surgir como consequência da doença, sem existirem as alterações previamente descritas. O que acontece é que a pessoa perde o seu “filtro social” e alguém que sempre se portou adequadamente em público ou em casa, deixa de o conseguir fazer.

Outras alterações psiquiátricas comuns nas demências são as alterações emocionais (tristeza ou alegria excessiva; ansiedade e medo exagerado; irritabilidade e inquietação; ou rápidas mudanças de humor em segundos ou minutos – num momento está a rir e de repente começa a chorar); as alterações do padrão do sono (insónia ou sono excessivo; dormir de dia e passar a noite acordado; muitos despertares durante o sono); e alterações do apetite com perda de vontade de comer, ou alimentação excessiva e preferência por determinados tipos de alimentos (sobretudo doces).

Apesar de não haver cura para as demências, existem medicamentos que ajudam a atrasar a progressão da doença e a tratar os sintomas psiquiátricos. Assim, é fundamental que estejamos atentos ao processo de envelhecimento dos nossos familiares mais velhos e procurar ajuda médica se nos apercebermos que algo no seu funcionamento está diferente do habitual e desperta preocupação. Poderá começar pelo seu Médico de Família, sendo sempre fundamental uma avaliação do ponto de vista físico da pessoa uma vez que algumas doenças do foro físico podem assemelhar-se a síndromes demenciais. Se este considerar que existe motivo de preocupação poderá aconselhar que a pessoa seja avaliada por Psiquiatria ou Neurologia, que poderá pedir exames para clarificar o diagnóstico e excluir outras doenças, assim como medicar em conformidade com os sintomas apresentados.



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