Espaço do Diário do Minho

Pognon, pognon, pognon!
2 Jul 2019
Luís Martins

Não é por acaso que o título da crónica se escreve em estrangeiro. Escutei a palavra, assim repetida, há umas semanas atrás, quando conheci Madame Nicole Bykoff, que me foi apresentada pelos amigos Luís Silva e Fátima Vieira, com quem tive o enorme prazer de conversar em bom português – na verdade fui mais ouvinte – sobre vários temas da sociedade, da política e da cultura. A interlocutora, francesa e com apelido russo obtido pelo casamento, evidenciou uma sensibilidade apurada sobre os gritantes contrastes sociais que atravessam os países e os continentes e sobre as actuais tendências materialistas. O dinheiro está a marcar a vida. É tudo, compra tudo, o emprego, a influência, o silêncio ou o testemunho falso, o que se publica nos jornais e as notícias que passam nas televisões. A oportunidade fez-me reflectir. Na verdade, é ele o senhor que domina o mundo. Só não influencia o movimento de rotação da Terra ou de Marte porque nesta matéria, o Senhor, o verdadeiro, o autêntico, se escreve com letra maiúscula.

Mas, é isto o que está a dar. O dinheiro faz mover influências, verdadeiras montanhas. Sobrepõe-se a qualquer outra coisa. Na banca já é assim há muito, embora só mais recentemente os banqueiros digam que não, reagindo às evidências, e se não lembrem das trapalhadas a que a boa vida os obrigou. Noutras entidades insuspeitas, ao que parece, começa a acontecer. O dinheiro deslumbra, comete injustiças, denuncia insensibilidades escondidas, é capaz de matar – quantos casos não têm enchido os jornais diários! –, de acabar com amizades de anos – isto já se diz há muito! – e até de abanar com algumas certezas.

Quando há dias me encontrei com Madame Soares e desabafei com ela o estado de espírito que me invadia o ser depois de saber que uma organização respeitável, no caso, uma escola com raízes e certamente com futuro, fundamental na região, se iria transformar num hotel de luxo e que as pessoas que aí prestam um serviço social e educativo de inigualável e inestimável valor vão ter de procurar outra geografia para levar a cabo a sua importante e nobre missão, ouvi a mesmíssima repetição: pognon, pognon, pognon!

Não pude mais calar o que me ia na alma, até porque não é caso único, embora os outros que conheço tenham contextos e desfechos diferentes, donde o desabafo de hoje com os meus estimados leitores. Escrevo triste e apreensivo, algo incrédulo sobre como é possível a decisão de desmantelamento de uma estrutura secular, de “uma marca de excelência na comunidade”, uma organização de referência no país e no mundo, um modelo a vários títulos, com pertinência e justificação actual, desde logo, tendo em conta o seu cariz especializado. Desmantelar uma estrutura social e educativa necessária e de referência para criar uma estrutura de turismo não é coisa pouca nem banal! Não deixa ninguém indiferente! Receber uma margarida é tão diferente de levar um murro no estômago!…

Fiquei incrédulo, sim. Ainda estou incrédulo, mas avisado. Pode ser que a informação não seja verdadeira!… E se o for? Onde farão a confraternização anual os antigos alunos? Em que se transformarão as salas de aulas de excelência? Claro que se não pode confundir a árvore com a floresta. Mas é assim que o fogo destruidor pega. Uma coisa é certa: quem gere uma floresta tem mais responsabilidade – muito mais! –, do que um bombeiro vigilante e cumpridor da sua missão, desde logo porque não consegue confrontar o superior hierárquico por causa do estatuto deste.

Temos assistido a despejos quase selvagens, que alguns designam por “bulling imobiliário”, nas principais cidades do país, sobretudo, nas zonas históricas, por pressão de interesses turísticos. Qualquer que seja a designação, ninguém parece disposto a estancar a tendência. Em quem podemos confiar?… O dinheiro é mais forte do que a cultura, a preservação ambiental e o direito das pessoas modestas. Os muros estão a cair. O poder está a ficar embriagado pela fortuna e não se dá conta do desmoronamento iminente. Todos cedem, até os mais insuspeitos, à pressão do “vil metal”. Parece não haver já reserva moral.



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