Espaço do Diário do Minho

Tenham lá mão
1 Jul 2019
Paulo Fafe

Sinceramente o digo, custa-me muito ver o que se tem passado com os autarcas! Uns estão ou estiveram presos, outros são ou já foram arguidos, outros foram ou estão com pena suspensa! Isto não é uma avalancha, tornou-se uma epidemia. Alguns pedem levantamento da imunidade parlamentar, tentando fugir ao fogo através do fumo. O mal prospera porque as pessoas boas não fazem nada. Não menciono nenhuns porque, por princípio, nunca escrevo sobre pessoas. A autarquia é a menina democrática dos meus olhos. Sempre entendi que o poder próximo, leia-se autárquico, era o que mais representava os interesses do povo ao invés do poder central que desconhece as necessidades desse mesmo povo. Assim o pensava e continuo a pensar. A primeira república, a generosa, perdeu-se precisamente porque nas autarquias havia esbulhos, autoritarismo, compadrio, nepotismo e caciquismo. Nas autarquias desde 1910 a 1928, o desvio das ideias republicanas foram tais e de tal monta, a degradação nacional era tão gritante, que o povo abraçou o estado novo como uma bóia de salvação. As autarquias desse tempo tinham à sua frente gente pouco preparada e nenhum saber governativo; hoje não podemos dizer o mesmo, é gente sabedora, logo, a sua responsabilidade aumenta na medida da sua preparação. Mas o compadrio foi vírus que não morreu com a primeira república; parece que ainda aumentou e, a acrescentar a isso, deram destaque a uns tantos prosélitos que, como cristãos novos, sempre se convertem a quem está no poder. É uma coisa espantosa como os autarcas os medram e, ao que parece, medram com eles. Isto resulta porque nas autarquias deveria haver uma consciência limpa de princípios e duma moral acima de qualquer tentação. É verdade que a primeira república não se perdeu apenas por causa do poder autárquico, perdeu-se também porque, a nível de governação central, mudava-se de governo do dia para a noite e algumas vezes houve que o governo caiu antes de tomar posse. Uma balbúrdia. Um administrador público a gerir a autarquia, e não um presidente político a fazê-lo, seria solução? Não, a solução é uma questão de consciência moral ou ética e configura-se com o exercício do poder. O poder sem consciência é uma arma letal nas mãos dum inconsciente. A bebedeira do poder, só embriaga os menores. Não se trata, pois, de homens ou de sistemas de gerência; trata-se única e simplesmente de honradez pessoal. A dificuldade começa pela existência de homens honrados para os cargos políticos. Todos os políticos são corruptos? Não, mas os que o não são começam a escassear. Já Diógenes teve de os procurar de lanterna em pleno dia! Essa honradez passa para o plano de ação: concretamente, será preciso que o presidente saiba sobrepor a política da autarquia ao poder da empreitada; o investimento e as políticas a ele associadas só deve ter um destinatário, o munícipe. Pairar alto é ser águia, é ver de cima e julgar por cima. Quem nada à tona da água não se afoga por grande que seja o caudal. Mandou a política, calou-se o capital; mandou a política, fugiram as derrapagens orçamentais. Mandou a política, começa a debandada dos “cristãos novos e calam-se as “loas ao novo santo”. A lisonja é uma maneira de mendigar. Cuidado com estes tartufos. O presidente da câmara, ou paira acima da corrente, ou será arrastado por ela e nela se afogará no próprio vómito. O presidente é o homem do projeto político e não o homem de remendos circunstanciais. Cabe aos pelouros remendar. Um presidente sem projeto político não passa dum funcionário público de fato e gravata. Não merece o poder quem o não sabe exercer.Tenham mão na autarquia para continuar a amá-la em vez de odiá-la.



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