Espaço do Diário do Minho

Heróis
28 Jun 2019
Carlos Dias

Numa vigilância de exames, estava um aluno com um polo que dizia: “Herói é um Homem vulgar, que faz algo extraordinário, num momento extraordinário”.

Dei por mim a pensar nas várias medalhas conquistadas pelos nossos atletas nos Jogos Europeus, que estão a decorrer em Minsk. No momento em que escrevo este artigo, entre 50 países europeus, Portugal ocupa a 11.a posição no medalheiro da competição.

Conquistamos, até ao momento, 11 medalhas (2 ouro, 5 prata e 4 de bronze). Pode até parecer “pouco”, mas, se atendermos a alguns factos, Portugal reúne um conjunto de heróis, que fazem autên- ticos milagres diários. Atos heroicos que, acima de tudo, elevam o nome de Portugal.

As três atletas da Maia que venceram as três medalhas na Ginástica Acrobática, ao comentar as suas conquistas, referiram alguns problemas na conjugação entre a atividade desportiva e académica.

Não existem muitos atletas no mundo que treinem cinco horas diárias e a seguir tenham que seguir os percursos académicos, como todos os outros alunos comuns. Inclusivamente referiram-se à grande dificuldade que encontram em marcar testes ou exames, porque a Universidade coloca-lhes muitos problemas.

O novo enquadramento legal do “Estatuto do Estudante/Atleta” prevê algumas situações de apoio e sustentação à carreira dual, mas tal como em muitas outras situações da nossa sociedade, uma coisa é no papel, outra coisa é no terreno, na prática diária e a sua efetiva aplicação em benefício das pessoas.

Num país onde os pais dos atletas suportam o desporto associativo; onde as instalações desportivas não comportam a prática exaustiva do processo competitivo de alto nível; onde as grandes estruturas são caras na manutenção e pouco rentabilizadas, e as estruturas intermédias têm poucas condições específicas e de conforto para a prática desportiva;

onde a Educação Física é constantemente desvalorizada; onde a compensação económica (de atletas e treinadores) é quase inexistente; onde 64% dos adultos indica não realizar qualquer tipo de atividade física; onde os Media dão pouco relevo ao ecletismo em beneficio do futebol dos “três grandes”; com tudo isto, obter uma medalha numa competição internacional é, mesmo, algo extraordinário. Em Portugal existe cultura clubística, mas não existe uma verdadeira cultura desportiva, e isso condiciona-nos.

Num estudo recente, analisando as motivações e desmotivações nas organizações ou empresas, foi constatado que o salário não é a principal causa de insatisfação dos elementos dessa mesma organização. O item “ausência de reconhecimento” foi a principal causa de desmotivação.

As pessoas, na grande maioria, não apontam o salário como a maior motivação, mas, “fazer algo que goste e me torne num ser maior”. E, neste campo, o desporto, na sua plenitude, contribui de uma forma extraordinária para a formação e integridade humana.

Porém, no alto nível, todo o sacrifício, a dedicação, a exigência, o tempo dedicado, tem, obrigatoriamente, que ser reconhecido e recompensado.

Este reconhecimento, não é só em termos financeiros, mas essencialmente, no apoio logístico e organizativo à prática competitiva e ao processo de treino. A responsabilidade da “compensação” ao alto nível compete a todo um sistema (ao Estado, aos Média e à Sociedade Civil) e não somente aos “heróis”, que estão diretamente envolvidos.



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