Espaço do Diário do Minho

As fardas e os fardados
28 Jun 2019
Artur Soares

Concorda o povo de que não há homens perfeitos. Só não concordará com tamanha verdade os muito imperfeitos. É sabido que em qualquer acto da vida, profissão, vida social, de dia ou de noite, a imperfeição humana surge, vê-se, sente-se. Logo, é na profissão, é em todas as profissões que se conhecem os profissionais indiferentes, os capazes e finalmente os do excesso de zelo.

Hoje, quero pela segunda vez, escrever sobre os agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), concretamente dos profissionais-agentes, indiferentes à profissão. Assim, ao ser público que mais de 270 agentes da PSP, são arguidos por peculato e falsificação de documentos, entre eles comandantes de esquadra e dirigentes sindicais, estes profissionais do dever de exigirem o cumprimento da Lei, foram foras-da-lei, adquirindo ilicitamente bens.

Se assim foi, se por isso são arguidos, se for provada a acusação, temos agentes da PSP que foramindiferentes à Lei, ao cumprimento dos seus deveres, como seriedade para com a farda que vestem, para com povo que servem e para com o Estado que lhes paga. Ora estes agentes da PSP (talvez) mais que imperfeitos, não se respeitaram a si mesmos e muito menos respeitaram a instituição que servem.

Depois temos os capazes de qualquer profissão. Neste caso, digamos o que entendemos por agentes fardadoscapazes, e que bem entendemos, pois não andamos neste mundo há vinte anos e sempre só pudemos comer à noite o pão, que foi ganho durante o dia.

Na década de 60/70 do século passado, era agente/sinaleiro da PSP de Braga, o sr. Carneiro polícia, bem como outros. Era um homem de um metro e oitenta e pesaria noventa quilos. Homem com muita capacidadena orientação do tráfego da cidade. Seguro, risonho, delicado. Polícia altamente respeitado, apreciado pelas suas virtudes profissionais e, o sr. Carneiro, reformou-se e vangloriava-se de em mais de quarenta anos de serviço na PSP, não ter tido necessidade ou razões para multar alguém. O sr. Carneiro – vi várias vezes – descia do palanque donde regulava o trânsito, fazia sinal aos condutores para parar, admoestava-os por algo que não gostava e regressava ao palanque a sorrir.

Outro caso de capacidadefoi o daquela senhora-agente da PSP de Braga, que vendo na rua cerca de 50 crianças pelo passeio e acompanhadas por três senhoras professoras, prevendo que iriam atravessar duas passadeiras, rapidamente se colocou no meio da via a interromper o trânsito de veículos, para que as crianças passassem em segurança. Na verdade, este gesto que registei neste mesmo espaço há cerca de seis anos, é prova decapacidade profissional, de verdadeiro sentido cívico, de respeito à farda que lhe foi confiada.

Finalmente temos os profissionais do excesso de zelo. Os que não compreenderam para que servem, como e onde actuar. E como é óbvio, também na PSP temos agentes comexcesso de zelo. Normalmente são frios, exibem a Lei, não sentem o valor da comunidade, são calculistas, talvez se odeiem a si mesmos, podem ter espírito vingativo e a farda que vestem é o seu deus, deus que os abandona quando vestidos à civil.

Atrás apontaram-se casos concretos de indiferença e de capacidade em agentes da PSP. Apresentemos também um caso de excesso de zelo. Um destes dias, no carro que estava à porta do centro comercial avenida, em Braga, com a intenção de estacionar a meio da rua dos Chãos, na garagem-parque ali existente e, como o percurso era de cerca de trezentos metros, não coloquei o cinto de segurança.

Mesmo ao acabar de curvar a esquina do banco de Portugal, um agente da PSP, corre para o meio da via – sujeito a ser atropelado por mim – levanta o braço no ar e diz: “encoste à direita”. Assustado e sem compreender a emboscada, perguntei ao agente o que tinha acontecido. “Não traz cinto de segurança – mostre-me os documentos”. Pedi-lhe desculpa por essa falta, que nunca tinha pagado uma multa por falta de cinto, que perdoasse e disse-lhe até que “nós, os funcionários públicos, não temos ordenado bastante para pagar multas ao Estado”. Sorriu e… “mostre-me os documentos”.

Mostrei a documentação. Colocou-se o agente nas traseiras do carro a escrever, demorando 17 minutos para concluir a devolução da documentação e dando origem a um aglomerado de umas 20 pessoas a apreciar a autuação. Previamente fui convidado a não sair do carro – não sei com que intenção – e, sorrindo, de boca rasgada, de olhar inocente, entregou a documentação dizendo: “está multado por falta de cinto. Pode seguir”. Eis a indiferença, a capacidade e o excesso de zelo nas fardas e nos fardados.

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)



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