Espaço do Diário do Minho

A beatice das beatas
26 Jun 2019
M. Moura Pacheco

1 – Antes de mais, uma declaração de (des)interesses: eu não sou fumador.

2 – «Beato(a)» é um termo que se aplica correntemente aos fanáticos religiosos que, pelos seus exageros, pervertem a religião e assim a desautorizam e desprestigiam, transformando a Fé na sua antítese – a crendice.

3 – Acontece porém que não é só na (pseudo) religião que há beatos(as). Há-os também na música, no pitoresco dizer do Maestro António Vitorino de Almeida. E, com a devida vénia, eu aproveito a ideia para acrescentar que também os há na política, na cultura, no desporto, na saúde, em muitas outras artes. E, mais recentemente, na ecologia. Sempre com a mesma característica: perverter, pelo exagero, os valores que defendem, tornando-os na caricatura do seu contrário. E sempre, sempre com resultados contraproducentes que são os mais ferozes inimigos dos ideais que defendem e que assim destroem.

4 – A nossa Assembleia da República aprovou, recentemente, uma lei que proíbe, com inaudita severidade, que se lancem para o chão as pontas não fumadas de cigarros, vulgo «beatas». Ao que ouvi na televisão (não li), 500 euros por beata – o suficiente para pôr a passar fome o mês inteiro um distraído que ganhe o ordenado mínimo. Não se pretendeu convencer ninguém que é uma porcaria deitar beatas para o chão. Pretendeu-se, simplesmente, impor. E penalizar quem não cumpra – como é próprio dos fanatismos.

5 – Embora eu pense (e comigo julgo que muita gente) que há no panorama pátrio problemas muito mais graves a clamar por soluções mais urgentes do que o das beatas – não se me afigurava mal que o Ministério do Ambiente lançasse uma grande campanha contra todos os lixos que se atiram para o chão, com especial destaque para as beatas. E porque não, e antes disso, uma campanha contra os «chiclets» que sujam e desfeiam muito mais do que as beatas e são de mais difícil remoção?

Mas que o Parlamento imponha, proíba e ferozmente penalize – isso já me parece fanatismo beato. Os senhores deputados não têm mais que fazer? Os grandes problemas do país, que lhes compete tentar resolver, são, afinal, os das beatas?

5 – Custa ver a nossa Assembleia emular com a Santa Inquisição. Se não na beatice religiosa, na beatice ecológica. Fanática como todas as beatices. Intolerante como todos os fanatismos, que pretendem, pela força e pelo castigo, impor a sua fé.

Convencer pela razão e pelo argumento? Isso só nas Democracias…

Os nossos deputados preferem perder o seu tempo com beatices. Como a beatice das beatas.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.



Mais de M. Moura Pacheco

M. Moura Pacheco - 28 Ago 2019

1 – Três notícias quase simultaneamente divulgadas por diversos órgãos de comunicação social, deram-nos, pelo seu conjunto, a estranha sensação de que o Pólo Norte se deslocara para o Pólo Sul e este para o Pólo Norte. 2 – A primeira é a de que o PAN (partido político dos animais, para quem não souber) […]

M. Moura Pacheco - 21 Ago 2019

Foi com esta expressão que um antigo ministro da Economia (António Pires de Lima) caracterizou a busca infrene e disfarçada de pecúnia por parte da Autarquia lisboeta. A expressão veio para ficar. O pior é que o método também. E – pior ainda – foi copiado e adoptado pelo governo central. Trata-se de um método […]

M. Moura Pacheco - 31 Jul 2019

É uma afirmação que já se tornou um lugar comum. Na rádio, na televisão, nos jornais, comentadores, opinadores e, sobretudo, políticos repetem à saciedade que, actualmente, Portugal tem «a geração melhor (sic) preparada de sempre». E, de tantas vezes repetida, passa de afirmação gratuita a verdade acriticamente aceite. Curiosamente, o português calino em que está […]


Scroll Up