Espaço do Diário do Minho

Saltillo e duas mortes que ficaram célebre
25 Jun 2019
Eduardo Tomás Alves

  1. Um artigo que há já bastantes anos planeava escrever).Este é, realmente, um trabalho (algo romântico…) que fui adiando, por motivos vários, escrever e publicar. Ele remonta ao já “remoto” Mundial de Futebol do México (1986). Foi por essa altura que a esmagadora maioria dos portugueses ouviu pela 1.ª vez falar de Saltillo. Era uma cidade do nordeste do México, capital do estado de Coahuila (o qual vai até ao famoso Rio Grande, a fronteira com os EUA); nessa cidade estagiou a nossa selecção e levantaram-se, bem a despropósito e logo naquele momento decisivo, problemas de prémios de jogo que deveriam, ou não, ser pagos; e por não haver concordância, criou-se internamente um mau ambiente que acabou por se reflectir nos resultados e na eliminação de Portugal na 1.ª fase.

  2. Ainda hoje, em Portugal, quando se fala de “Saltillo”…). Quando se pronuncia a palavra, “Saltillo”, ela soa algo como “uma discórdia que levou a um imerecido falhanço”. Para muitos, Saltillo (que significa “pequeno salto, queda de água”) é o nome de certo “vilarejo”, onde se situava o hotel em que estagiou a selecção. Ninguém se lembrou de que era a tal capital do estado de Coahuila (fundada em 1575), com uma famosa catedral e uma universidade (desde 1957), centro comercial e de comunicações, cidade termal e em área rica em minérios. A nossa selecção contava com estrelas da categoria de Futre, Rui Águas, Sousa, Bento (e ainda, Damas, ambos hoje já falecidos), João Pinto (do FCP), Jaime Pacheco, Fernº Gomes, André, Diamantino, Jaime Magalhães, Álvaro (do SLB), Carlos Manuel e Inácio. O treinador era o notável José Torres, também já falecido. Apesar de tudo, começámos bem (vitória por 1-0 com a Inglaterra, golo de C. Manuel). Porém, logo depois, duas derrotas: com a Polónia (0-1) e com os então nada cotados marroquinos (1-3, sendo o golo” cristão”, de Diamantino).

  3. Linda Ronstadt e as “Canciones de mi padre”). Desde muito novo que sou grande apreciador da música folclórica (ou tradicional) de muitos países, independentemente do continente em que são situados. Uma das que, primeiro me chamaram a atenção foi a das Ilhas Britânicas e as suas derivações norte-americanas (o “country” e o “cajun”, sobretudo). De repente, apareceu uma bela voz da “country” (Linda Ronstadt) a revelar que descende de alemães e de mexicanos e a cantar belas canções tradicionais mexicanas (“corridos” e “rancheras”), algumas que datavam do início do séc. XX. Por essa altura já eu tinha vários bons discos de folclore mexicano, especialmente os interpretados pelos melhores “mariachis” (i. e. , grandes conjuntos de vozes e instrumentos acústicos). E começava a conhecer algumas das melhoras vozes da “tierra en que el aguila posó”: Lucha Reyes, Irma Vila, Lola Beltrán, Lucha Moreno, Chavela Vargas, Enriqueta Jiménez (“la prieta linda”), Beatriz Adriana, Pedro Vargas, Pedro Infante, hermanos Záizar, o “charro” Avitia, Cuco Sánchez, Jorge Negrete, Alberto Vásquez, Luis Aguilar, J. Alfredo Jiménez, Lalo González”. O citado disco de Linda Ronstadt incluía obras-primas como “Por um amor”; “ Y andale”; “Hay unos ojos”; “Los laureles”; “ El sol que tú eres”; “ La charreada”; “ Dos arbolitos”; etc. (e num 2º disco, “Grítenme piedras del campo”; “ Siempre hace frio”; “Mi ranchito”; “Pena da los amores”,etc.). Enfim, algo do melhor que já produziu a pátria de Venustiano Carranza, de Cárdenas, dos últimos fãs do VW carocha e dos “gallos leales a don Rodolfo Voeller”.

  4. Heróis da Guerra Civil de 1911-21). O México dos aztecas e dos maias, anterior à conquista espanhola de 1521, está bem retratado no filme “Apocalypto”, de Oliver Stone; ou nos quadros de Diego Rivera; ou no muito sensual (e brutal) “Cortés y Malinche”, de Orozco. A guerra civil começou com a queda de Porfírio Díaz; e os seus protagonistas principais foram Madero, Zapata, Carranza, Franc.º Villa, Huerta, Obregón. Mas houve muitos heróis populares, menores ou não, que os corridos celebram (Felipe Angeles, Gabino Barrera, Pánfilo Natera, Valentín de la Sierra, Villa, Zapata, Argumedo, Robles, Macrobio Herrera, Urbina, Arrieta, La Adelita, o “caballo Azebache”, a “Cucaracha”,etc.

  5. Saltillo e as mortes de Rosita Alvírez (1900) e Agustín Jaime, em 1933).A 1.ª vez que ouvi cantar o fabuloso “corrido de Rosita Alvírez” foi na TV e interpretado pela já citada Linda Ronstadt (em dueto); outra voz que bem o cantou foi a de Beatriz Adriana. É a história duma beldade de Saltillo que, contra a vontade da mãe foi a um baile; e aí foi morta a tiro por Hipolito, um pretendente rejeitado: “Año de 1900, muy presente tengo yo, en un barrio de Saltillo, Rosita Alvírez murió; su mama se lo decia, Rosa, esta noche no sales; mama no tiengo la culpa, a mi me gustan los bailes; Hipolito llegó al baile y a Rosa se dirigió; como era la mas bonita, Rosita lo desairó; Rosita, no me desaires, la gente lo va a notar; pues que digan lo que quieran, contigo no he de bailar; hechó mano a la cintura y una pistola sacó; y a la pobre de Rosita no mas, 3 tiros le dió; Rosita está en el cielo, dandole cuenta al Criador, Hipolito está en la cárcel, dando su declaración…”. Isto se passou, como disse, em 1900. Já em Novembro de 1933, aconteceu o assassinato, numa “cantina” e por rivalidades amorosas, de um tal Agustín Jaime. “Agustín bajava, a caballo, a ver a su chata (Maria Garcia) que estaba en Rio Bravo; bonito Saltillo, no puedo negar, murió Agustín Jaime, porque supo amar; bonito caballo que Jaime montaba, como era entendido, a señas le hablaba”.

6 Infelizmente, os heróis dos “corridos “ de hoje são outros).Razão tem Trump, ao vigiar bem a sua longa fronteira (Califórnia, Arizona, Novo México, Texas). Os “corridos” de hoje celebram prósperos e audaciosos traficantes de droga (e agora, também de seres humanos), ao pé dos quais a “velha” Mafia do sul de Itália lembra um educado pequeno grupo de “meninos de coro”.



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