Espaço do Diário do Minho

Efeitos da cultura «next»?
25 Jun 2019
João António Pinheiro Teixeira

  1. É sabido que ser homem é ser nómada, peregrino, viandante.

Mesmo quando nos sedentarizamos, dificilmente o fazemos por muito tempo e no mesmo lugar. Muitas vezes, só nos sentamos depois de vencermos «toneladas» de quilómetros.

  1. Cada acção sedentarizada programa habitualmente a «próxima» acção sedentarizada.

Não raramente, esta ocorre num sítio diferente e até pode obrigar-nos a deslocações para locais muito distantes.

  1. São os efeitos da cultura «next».

Se repararmos, nunca estamos inteiros onde estamos. Estamos sempre com o pensamento no «próximo» local, na «próxima» actividade, no próximo «projecto», etc.

  1. Seremos mesmo «gente que não sabe estar»? De facto e à primeira vista, é o que parece.

Parece que deixamos de saber «estar». O que mais fazemos é «andar», «correr», «acelerar».

  1. Tudo isto – no limite – atira-nos para um paradoxo existencial: por um lado, saímos para «estar com» toda a gente; mas, por outro lado, não somos capazes de «estar para» quase ninguém.

E é assim que vamos coleccionando – à escala planetária – «lugares de passagem». Não arranjaremos tempo para desfrutar de um único «lugar de paragem»?

  1. Dá a impressão de que a mobilidade está a destapar uma contínua – e entranhada – insatisfação.

«Andamos», «corremos» e «aceleramos» porque nos sentimos insatisfeitos onde estamos. Mas, pela amostra, também não nos satisfazemos muito nos espaços onde passamos a estar.

  1. Porfiamos, com extremos de ansiedade, pela «próxima» experiência. Mas quando esta chega, facilmente a descartamos com cominações de decepção.

No fundo, o que mais consumimos é a velocidade, a pressa e a pressão. Quem, hoje em dia, chega descansado de uma viagem planificada para descansar?

  1. Desistimos de parar, de contemplar, de valorizar o hoje e de optimizar o agora. Estamos numa terra e a pensar no tempo que leva a chegar ao «próximo» destino.

Em nenhum lugar nos sentimos em casa. Passamos a vida de malas feitas, passeando pelo mundo o nosso irremediável desconforto.

  1. Até dentro de nós temos dificuldade em parar. Até dentro de nós não conseguimos estar em nós.

Daí a necessidade de estarmos sempre em movimento e cercados de ruído. Nem de noite nos recolhemos O encontro connosco incomoda-nos? Não espanta que o homem – segundo Nietzsche – se tenha tornado «o ser mais distante de si mesmo».

  1. Só em Deus descansaremos. Só n’Ele venceremos a «fadiga de ser eu» (A. Ehrenberg)e a amargura de nos sentirmos «apenas»nós.

Inquietos nos veremos enquanto não repousarmos em Deus. Só na Sua mão – como poetou Antero – «repousa, afinal, o nosso coração»!



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