Espaço do Diário do Minho

DEMAGOGIA, NÃO!
25 Jun 2019
J. M. Gonçalves de Oliveira

De uma forma simplista, podemos definir demagogia como a conduta política que intencionalmente visa agradar ao povo, envolvendo promessas ilusórias ou dificilmente realizáveis, tendo em vista apenas e só a manutenção ou a conquista do poder. É um fenómeno que nos dias de hoje está a alastrar e a corroer regimes democráticos, levando ao governo de alguns países formações populistas com agendas verdadeiramente fascizantes. Já Aristóteles, ilustre filósofo grego (384 – 322 a. C), no livro “A Política”, se refere à demagogia como a corrupção da democracia.

Na realidade, se reparamos na ascensão de algumas destas organizações na Áustria, na Hungria e mais recentemente em Itália, mais do que dizer que estamos a assistir a uma profunda reconfiguração política um pouco por toda a Europa, é preciso saber interpretar os sinais dos tempos e não esquecer os ensinamentos da História.

Interpretar os sinais dos tempos procurando as causas que estão na génese do descontentamento, do desencanto, da frustração e até de algum desespero das novas gerações, deverá ser a primeira preocupação de quem governa. São elas as primeiras a sentir na pele os efeitos da globalização e das grandes transformações sociais, económicas e políticas que esta trouxe, como também são estas pessoas para quem as agruras das guerras e as vivências de regimes ditatoriais e sanguinários não são mais do que factos longínquos e sem particular significado.

Mais do que nunca, impõe-se não esquecer os ensinamentos da História e fundamentalmente rever e refletir sobre as grandes catástrofes humanas do século XX: As duas guerras mundiais, a eclosão do nazismo na Alemanha e do fascismo em Itália e no Japão, o movimento comunista inaugurado com a revolução bolchevique na Rússia e alargado a muitos países europeus e de outros continentes, com as consequências conhecidas e onde não podem ser ocultados os muitos milhões de vítimas, tantas vezes sujeitas a horríveis sevícias e por fim cruelmente assassinadas.

Quer na análise das causas que levam as populações, sobretudo as mais jovens, a desprezarem a democracia abstendo-se, ou a darem o seu voto a movimentos e partidos que em última análise a pretendem destruir, quer reavivando as lições da História, sobressai sempre a demagogia como a razão principal destes verdadeiros desastres. A demagogia aparece como sendo a maneira hábil e enganadora de levar ao poder déspotas e ditadores que, mais cedo ou mais tarde, não só esquecem o valor da liberdade, como também se apressam a aniquilar os mais elementares direitos humanos.

Com clarividência e alguma perspicácia, todos seremos capazes de constatar que o mundo vive tempos conturbados. Ninguém duvida que há focos de guerra e de perigosa tensão em várias latitudes. E entre nós? Estará Portugal resguardado destas ameaças para o nosso regime democrático?

Na verdade, não tenho muitas certezas. É certo que o nosso país não tem movimentos extremistas com significativa expressão. Julgo que isso acontece, porque não tem os mesmos problemas de muitos outros países que diariamente alimentam e fazem crescer os referidos movimentos. Refiro-me em concreto ao volume de refugiados e migrantes e à crescente islamização de algumas sociedades europeias.

Acredito que estas particulares circunstâncias nos têm preservado de movimentos racistas, xenófobos e populistas. Mas será que estaremos abrigados da famigerada demagogia?

Na conjuntura atual, com o aproximar de duas importantes eleições nacionais – Regionais da Madeira e Legislativas – as tentações serão muitas e já despontaram.

Prometer o fim das taxas moderadoras nos Cuidados de Saúde Primários no SNS (lembro que as crianças e jovens, assim como os mais pobres e os beneficiários do Rendimento Social de Inserção já não pagam), quando se sabe que este mesmo serviço está deficitário em recursos materiais e humanos e tem uma dívida enorme, não será um paradoxo? Garantir aumentos salariais e anunciar muitas mais contratações para a Função Pública para o próximo ano, sobretudo numa ocasião em que fruto de condicionantes externas a economia pode descambar, não será vender ilusões e injustificadas promessas?

Neste ambiente conturbado dos nossos dias, urge estar atento e não dar crédito a quem usa a demagogia para conquistar votos a qualquer preço. É preciso distinguir quem mente de quem fala verdade.



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