Espaço do Diário do Minho

O beijo de Salvini
23 Jun 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Primeiro os factos, senhor ministro”. O título do longo editorial que, no dia 15, ocupava toda a coluna do lado esquerdo da primeira página do diárioAvvenire, o jornal da Conferência Episcopal Italiana, fazia supor que os factos representariam uma contrariedade para o “senhor ministro”. E assim era. A firme imprecação contra Matteo Salvini, o ministro em questão, admoestava-o por causa de uma sinistra incoerência: o governante gaba-se de combater os traficantes de seres humanos, mas quer que seja um deles a ditar o destino de cerca de meia centena de pessoas resgatadas no Mediterrâneo pelo SeaWatch 3, um barco da Organização Não-Governamental homónima.

A duplicidade do governo italiano é escandalosa: apoia financeiramente a Líbia para que os migrantes fiquem retidos no país, mas o dinheiro vai parar aos bolsos de um criminoso internacional que ora combate o tráfico de migrantes, ora o incentiva ou consente, conforme lhe for mais conveniente. Tudo depende de os traficantes merecerem ou não o seu conluio. Os que não beneficiam da sua cumplicidade vêem os migrantes que fazem transportar detidos no alto mar para serem conduzidos para campos líbios, cuja desumanidade tem sido amplamente criticada pela ONU, por exemplo. Matteo Salvini está, portanto, na prática, a patrocinar o tráfico que diz combater.

O criminoso que beneficia da acção de Matteo de Salvini chama-se Abd al Rahman al-Milad e é mais conhecido por Bija. Há abundantes textos, incluindo no Avvenire*, sobre as malfeitorias deste homem que comanda a unidade regional da Guarda Costeira em Zawiya e está constantemente envolvido em múltiplos actos de violência contra os migrantes. As Nações Unidas garantem que ele e a sua Guarda Costeira afundam embarcações de migrantes utilizando armas de fogo. Mas nem sempre o fazem. Outras vezes, recolhem os migrantes no mar para os conduzirem ao centro de internamento de Al-Nasr, onde recebem um tratamento que as Nações Unidas também considera brutal. Mas a actuação desta criatura inclui ainda a colaboração com um traficante de seres humanos, Mohammed al-Hadi, também ele caracterizado pela duplicidade. Este criminoso controla, ao mesmo tempo, um eixo central das operações de tráfico de migrantes e os centros de internamento, incluindo o de Nasr, que se apresenta oficialmente sob a tutela do organismo líbio de luta contra a migração ilegal.

O que se diz sobre Abd al Rahman al-Milad não decorre de meras suspeitas de conduta sinuosa. O Conselho de Segurança das Nações Unidas já o sancionou por ser uma das seis pessoas que lideravam redes de tráfico de migrantes na Líbia, tendo sido o primeiro processo do género promovido pelas Nações Unidas. Escreve Paolo Lambruschi no editorial do Avvenireque é a este homem que o ministro italiano quer entregar os pobres migrantes que se encontram a bordo do barco humanitário: “Em suma, os factos, não as opiniões, dizem que o ministro Matteo Salvini, que se vangloria de combater os traficantes de seres humanos, queria que o Sea Watch 3 devolvesse os migrantes a um chefe desse tráfico imundo. O Sea Watch 3 recusou e foi em busca do porto seguro mais próximo, que é o de Lampedusa. Mais do que ‘pendurarem-se no meio do mar’, os alemães [da Organização Não-Governamental SeaWatch 3] mantêm a integridade e não se tornam cúmplices dos traficantes”.
Há não muito tempo, uma imagem foi amplamente difundida pelos mediaitalianos e internacionais. Mostrava o ministro Matteo Salvini, que se quis fazer fotografar e filmar a beijar a cruz de um terço. São sempre beijos de Judas, estes, os dos cúmplices dos carrascos.

*O jornalista Nello Scavo publicou recentemente no Avveniredois artigos eloquentes sobre Abd al Rahman al-Milad: “Migranti. Chi è Bija, il guardacoste e trafficante libico pagato da Italia ed Europa” (8 de Junho) e “Bija, il boss dei trafficanti in azione. A caccia di motori per i barconi” (15 de Junho).

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Há não muito tempo, uma imagem foi amplamente difundida pelos mediaitalianos e internacionais. Mostrava o ministro Matteo Salvini, que se quis fazer fotografar e filmar a beijar a cruz de um terço. São sempre beijos de Judas, estes, os dos cúmplices dos carrascos.



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