Espaço do Diário do Minho

Os cidadãos importam!
22 Jun 2019
António Lima Martins

Todos desfraldam a bandeira da maior proximidade entre política e cidadãos, mas poucos são os que apostam, efectivamente, na mesma. Papel fundamental não pode deixar de ser ainda confiado aos partidos. Democracia sem partidos é uma utopia! Mas os partidos – já muitos os disseram, menos os que o concretizam – têm de alterar os seus princípios e formas de actuação, as suas bases de diálogo com as pessoas e sua motivação para aqueles.

Não é necessário uma militância, tampouco a indesejável partidarite em jeito de adepto de clube. Basta uma colaboração nos dois sentidos e o estabelecer de veias comunicantes que não entupam – mal que nos vem assolando – das gorduras dos amiguismos, compadrios, egos, interesses exclusivamente pessoais ou corporativos. Os partidos são um dos meios – não único – capazes de sedimentar e agregar projectos, ideias e ideais do cidadão comum.

Assim o queiram – muitas vezes não querem por mais cómodo para os que estão e não gostam de não estar – os seus dirigentes. Para que tal desiderato se solidifique, não podemos continuar a olhar para os partidos e deixar que eles se assumam como movimentos acéfalos, acríticos, enclausurados numa redoma, assentes num pequeno, muitas vezes diminuto, número de militantes participativos ou ditos quotizados.

Os partidos hão-de projectar-se para fora dando, mas também recebendo, independentemente de quem, militantes, simpatizantes, apoiantes ou nenhum destes e apenas de quem quer ajudar livremente a construir no presente um futuro melhor para todos. É este, aliás, a génese da política. A cidadania precisa-se de modo a combater extremismos, indiferença, a prostração, a inércia daquela que, comumente, se designa de sociedade civil, no fundo nós!

A este propósito partilho a minha experiência como membro do Conselho Estratégico Nacional do PSD para a área da Justiça, Cidadania e Igualdade. Iniciativa louvável que congrega, em amplas secções temáticas, quem pretenda pensar, estudar, ouvir, trabalhar, dar linhas de desenvolvimento para Portugal! Isto sim consubstancia, também, oposição e pena é que muitos vejam esta, tão-só, quando há barulho mediático!

Mas este é somente um passo, uma de muitas fórmulas que deverão ir além das fronteiras de um qualquer programa eleitoral alicerçadas na dita sociedade civil, política ou até anónima, para movimentos que se conjuguem em propostas diferenciadoras, que extravasem o centro dos aparelhos partidários e se congreguem na esfera das pessoas, noutras plataformas apartidárias ou sem a sua carga associada e que afasta quem não comungue de uma certa ou outra visão.

Apesar do óbvio sucesso que aquela via tem tido em áreas temáticas distintas, a minha experiência dita que sofre de vários entorses, seja pela associação a um partido, seja porque muitos há que continuam a preferir o debitar nas redes sociais de consumo rápido e efémero, seja porque o trabalho sério, contido, rigoroso, não “vende” comunicacionalmente.

Continua a haver alheamento, não obstante os mesmos que se alheiam não deixarem de criticar o fechamento dos partidos; quando são convocados, o comodismo ou a inércia vencem, a mal de todos. O tempo que muitos despendem a zurzir e a destilar críticas por aí, bem podia ser encaminhado para uma atitude de proactividade e esforço em projectos deste cariz ou outros similares. É que todos contamos!

E a todos deve ser lançado o desafio de repensarmos a melhor forma de recolha de contributos e replicar noutros fóruns mais próximos, mais locais, uma melhor dialéctica política. Tem sido, no entanto, pouca ou nenhuma a abordagem neste quadro, mormente de quem mais politicamente intervém e que deveria dar exemplo.

O que mais recentemente se aproximou a nível local (falo de Braga naturalmente) de uma iniciativa que procurava desbravar algum terreno nesta aproximação e auscultação do cidadão, foi a reflexão do PSD Braga sobre o “Reflorestamento e Conservação da Floresta em Braga. Mas já lá vai um ano.

Certamente é necessário fazer ver aos Portugueses que os seus inputs, por formação, gosto ou apetência, podem ser tidos em conta ou, pelo menos, discutidos. Todos somos políticos enquanto cidadãos de uma comunidade no serviço à polis. As iniciativas de cidadania que projectam o futuro, devem ser uma constante a partir de ideias sedimentadas que não ao sabor de microfones.

Este repto é para todos nós que temos, não um dever, mas um direito a interagir, participar e sentirmo-nos ouvidos e colaborantes, fora das bolhas de interesses e corporativismos, numa voz do Povo sem complexos. Aí os partidos têm (devem ter) o papel aglutinador e empreendedor, até pela capacidade organizativa e de meios que dispõem. Estejam estes interessados a bem do que lá virá!



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