Espaço do Diário do Minho

Para que servem os “influenciadores”
16 Jun 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Cada pessoa tem diariamente contacto com cerca de três mil marcas. A quantificação

é do diário espanhol El Mundo, que há poucos dias escolheu como tema principal do suplemento Papelum dos procedimentos mais recentes a que o marketingrecorre para capturar a atenção dos potenciais clientes de produtos e serviços. Perante um elevadíssimo número de marcas (há outras estimativas, mas a quantidade é sempre impressionante), os cidadãos têm de ser seduzidos de um modo cada vez mais sofisticado para se lembrarem delas quando for preciso gastar dinheiro ou, melhor ainda, para o gastarem sem ser necessário. A nova publicidade parece ser agora feita por “influencers”, um termo que designa as raparigas e os rapazes que se atiram do anonimato para as redes sociais para se dedicarem a impingir, por exemplo, roupa, produtos de beleza ou aquilo a que chamam “experiências”.

Os “influencers” contaminam também as páginas de muitos jornais e revistas, razão por que a reportagem do jornal El Mundose revela particularmente útil, ao chamar a atenção para aquilo que é, usando o título da reportagem, “a grande farsa dos influenciadores: o lado obscuro do negócio milionário das publicações nas redes sociais”. A história escolhida como sintoma do que está a suceder é cómica. A protagonista chama-se Arii. É uma “influenciadora” dos Estados Unidos da América. Tem 18 anos e mais de dois milhões e meio de seguidores no Instagram.
Nessa rede social, colocou a jovem, em Setembro de 2017, a primeira fotografia. A estreia foi acolhida com 139.651 likes. Os gostosseguintes foram obtidos à custa de Arii posar, num dia, com um novo boné de marca, e, no outro, com sobrancelhas recém-branqueadas. Os likestambém enalteceram umas sapatilhas novas, um batom fúcsia, uma gama de produtos de beleza ou uns bolos matinais, que a rapariga exibe em roupão, tendo como cenário a Torre Eiffel. A quantidade imensa de seguidores, de gostose de comentários acumulados na conta do Instagram motivou Arii a lançar uma linha de roupas pessoal. “Afinal, ela é uma influenciadora”, diz o diário espanhol. O resultado, todavia, esteve muito longe de ser o esperado. A jovem não conseguiu sequer vender 36 t-shirts, o número mínimo para poder fazer uma encomenda.

A história tem ainda uma ironia suplementar. Arii deplorou o fracasso comercial, dizendo literalmente que os seus seguidores lhe tinham partido o coração, sublinhando-o com a colocação de um emojimostrando um coração negro. O lamento teve 35.788 likes. Ou seja, houve pelo menos mais 35.753 gostosdo que compras de t-shirts.

O caso ilustra adequadamente a escassíssima capacidade de persuasão dos “influenciadores”, mesmo tendo um abundante número de seguidores. O jornal espanhol acrescenta uma experiência que o corrobora. No ano passado, uma agência denunciou a grande fraude promovida por este novo tipo de gente fazendo algo muito simples: contratou uma actriz e criou-lhe um falso perfil de “influenciadora”. Depois, expandiu artificialmente o número de seguidores e manipulou várias marcas, que se quiseram fazer publicitar pela personagem inventada. A agência, por fim, divulgou tudo num pequeno documentário. Diz o jornal que o truque é simples e barato. Como a Internet está repleta de sitesque permitem comprar seguidores em qualquer rede social para demonstrar que se é influente, apenas é necessário decidir quanto se quer gastar. Por menos de 10 euros, é possível obter 10 mil novos seguidores; por 75 euros, 100 mil. Ter 10 milgostosna foto mais recente custa cerca de 18 euros e receber 500 comentários maravilhosos, menos de 50 euros.
Como o jornal constata, a credibilidade dos “influenciadores” é escassa, apesar de a “bolha do novo narcisismo” continuar a crescer. Muitos deles são, de resto, demasiadamente tontos para poderem influenciar alguém. A revista de moda do diário El Paísreferia na segunda-feira que, depois do êxito de uma série sobre o desastre nuclear de Chernobyl exibida pela HBO, dezenas de “influenciadores” foram para uma cidade ucraniana, abandonada por causa da catástrofe, para se fazerem fotografar em poses de todo o género, “cada qual menos respeitosa dos acontecimentos que ali tiveram lugar”. Esta manifestação de estupidez tem antecedentes. Outros “influenciadores”, tal como recorda a revista S Moda, escolheram Auschwitz para cenário das suas fotografias para o Instagram.

Se alguma ascendência puderem exercer, estes “influenciadores” – visto que é diminuta a influência que têm sobre o consumo – apenas conseguirão tornar mais estúpidos os influenciados. Mais estúpidos, mais ignorantes e mais egolátricos.



Mais de Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes - 21 Jul 2019

O Verão coloca a imprensa em slow mode. As revistas semanais de informação, como a Sábadoe a Visão, fazem capas com o Alentejo e os jornais diários inauguram as páginas estivais. Como de costume, surgem os inquéritos com perguntas rançosas. A praia preferida, o pesadelo de férias e banalidades do género são os assuntos que […]

Eduardo Jorge Madureira Lopes - 14 Jul 2019

Uma breve afirmação proferida há quinze anos pelo então presidente e director-geral da TF1, o canal de televisão mais visto em França, suscitou uma imensa e prolongada controvérsia: “Sejamos realistas: essencialmente, o trabalho da TF1 é ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto”. Para se fazer entender devidamente, acrescentou: “Ora, para que […]

Eduardo Jorge Madureira Lopes - 7 Jul 2019

As cidades da Europa e do mundo, e aquilo que mais as dinamiza, merecem a atenção regular da revista britânica Monocle. O número mais recente, de Julho e Agosto, entre muitas matérias de leitura proveitosa, inclui 50 exemplos do que pode servir para qualificar uma urbe ou 20 conselhos sobre “como ser um bom cidadão”, além […]


Scroll Up