Espaço do Diário do Minho

Refletindo sobre a abstenção nas eleições europeias
12 Jun 2019
Dinis Salgado

A meu ver, a culpa da abstenção crónica e ascendente nas eleições para o Parlamento Europeu cabe mais aos eleitos do que aos eleitores; e a prova está nas sondagens de rua anteriores ao ato eleitoral que mostram ser a maioria dos inquiridos desconhecedores daquilo que vão fazer, pois nem é capaz de apontar o nome de um candidato que seja, nem sequer sabe para que vai votar; ora este comportamento revela uma enorme indiferença e desmotivação por tais eleições.

Claro que é mais preocupante ainda, quando constatamos que, nos outros países da União Europeia, igualmente, a abstenção é elevada; embora possamos pensar que com o mal dos outros podemos bem, não fora a evidência de que estamos todos no mesmo barco e sujeitos ao naufrágio coletivo.

Então, a pergunta é: será que este virar costas à escolha dos nossos representantes para o Parlamento Europeu significa que tanto se nos dá como se nos deu ou seja com União ou sem União Europeia a nossa vida pouco ou nada tem a perder? E, até, contrariamente tendência teria para melhorar, se optássemos pelo Brexit?

Ora, o perigo desta forma simplista de pensar e raciocinar arrasta consigo um euroceticismo favorável ao fim da União e bem patente na prática dos partidos de esquerda e extrema-esquerda, críticos e contrários a esta governação conjunta; ademais, o avanço dos extremismos e nacionalismos de direita e esquerda, bem como de extrema-direita e extrema-esquerda em toda a Europa, começam a transformar-se numa ameaça à paz e progresso da própria União.

Senão vejamos: atualmente dos 28 países que formam a União Europeia, apenas Portugal, Irlanda, Luxemburgo, Reino Unido, Malta e Roménia, nem nos governos, nem nos parlamentos contam com partidos ou coligações de direita nacionalista e de extrema-direita; e, assim, os restantes 22 países da União (Alemanha, França, Itália, Áustria, República Checa, Bulgária, Eslováquia, Croácia, Estónia, Letónia, Espanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Grécia, Eslovénia, Chipre, Lituânia, Hungria e Polónia) têm ou nos seus parlamentos ou nos seus governos, representantes de partidos da direita nacionalista ou de extrema-direita; e na Hungria e Polónia a direita nacionalista é mesmo maioritária.

Pois bem, atualmente a União Europeia enfrenta graves problemas sociais, culturais e económicos que permitem o avanço e, num futuro não muito longínquo, o domínio dessas fações políticas, havendo ainda que contar com os extremismos de esquerda já presentes em Portugal no apoio parlamentar que dão ao governo, através da geringonça, que ameaçam a paz, o desenvolvimento, a união e o progresso – realidades conquistadas, com muito sangue, suor e lágrimas, após a Segunda Guerra Mundial; e que resultaram de uma vontade conjunta dos países envolvidos no conflito, devastador de vidas e bens.

Assim, o envelhecimento da população, os custos com os cuidados de saúde e pensões de reforma dos mais velhos, o aumento das desigualdades, o desemprego gerado pela robotização, pela inteligência artificial e pelas redes sociais e tecnologias de informação, da baixa acelerada da natalidade, a imigração crescente com problemas evidentes de integração e aculturação, o combate às alterações climáticas para manutenção da sustentabilidade do Planeta e mais dramático ainda a defesa dos direitos individuais dos cidadãos e da própria democracia ameaçados, são os maiores e prioritários desafios que se colocam à União Europeia; e cuja resolução bem concertada e sucedida passa infalivelmente pela ação conjunta e empenhada dos seus membros.

Agora, também os cidadãos dos países membros da União devem ser esclarecidos e alertados devidamente para estas realidades e para os perigos de dissolução da mesma União que a sua não resolução acarreta; e a forma certa de o fazer com sucesso é através de campanhas de esclarecimento, mobilização, sensibilização e motivação através dos meios de comunicação social e dos representantes no Parlamento Europeu.

E, então, voltando às causas da abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu de 26 de maio como resultantes de um trabalho de informação ineficiente e pouco convincente dos candidatos ao cargo, o que daqui resulta efetivamente é o desinteresse e alheamento dos eleitores para estes males e perigos que espreitam e impedem o verdadeiro sentido de União dos 28 membros.

E isto faz-nos tirar uma conclusão: se nos queremos manter na União Europeia não podemos baixar a única e verdadeira arma de que dispomos e é o voto e não a abstenção; o que, em termos mais práticos, significa votar, votar, votar.

Então, até de hoje a oito.



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