Espaço do Diário do Minho

“Até quando, Catilina…?”
11 Jun 2019
Eduardo Tomás Alves

  1. Europeias”, com consolidação de nacionalistas e subida dos “Verdes”) As eleições de Maio para o chamado “Parlamento Europeu” (no qual, os deputados não têm iniciativa legislativa) caracterizaram-se, como habitualmente, por uma abstenção acentuada; a qual, em Portugal, rondou os 70%. Partidos políticos monotemáticos, pretensamente ecologistas (ditos “verdes”) subiram um pouco por toda a parte, nomeadamente em França e sobretudo na Alemanha. Curiosamente, em Portugal, não: o PEV, que são os verdadeiros ecologistas (de Heloísa Apolónia), integrado na CDU, até baixou: esta coligação teve agora uns modestos 6,7%. Um sucedâneo, o PAN, que parece mais virado para a defesa dos animais que das pessoas; e que defende um estrito vegetarianismo (o “veganismo”), além de outras saborosas mas venenosas excentricidades, obteve 5,1% e elegeu para Bruxelas 1 deputado, um perfeito desconhecido na nossa cena política. E em muitas freguesias obteve melhores resultados que o CDS ou que a CDU…

  2. O triunfo do Nacionalismo moderado, em França, Itália, Grã-Bretanha, Hungria, etc.) Já não é novidade nenhuma. Eles “não comem criancinhas”; e até já são governo em países tão “insignificantes” como os EUA, a Rússia, a China, o Brasil, a Bolívia, as Filipinas, a Polónia (com Trump, Pútine, Shi Jin Ping, Bolsonaro, Evo Morales, Duterte ou Kaczinski). Apesar da abstenção (e decerto, muitos nacionalistas nem sequer votam nas “Europeias”, pois não acreditam neste tipo de “Europa”), apesar disso Marine Le Pen (RN) ganhou em França, com 23% (votos a que se podem até somar os 5% de Dupont-Aignan e os 1,5% do “Debout la France”); enquanto o desajeitado e atrapalhado Macron (L A R E M), com toda a máquina dos “media” e do Estado por trás, só chegou aos 22%. Em Itália, os radicais de direita da Lega, de Salvini, ficaram em 1.º lugar, com 34% . Mais que os 31% que alcançou na Grã-Bretanha o nóvel (2 meses…) “Brexit Party”, do sempre misterioso Nigel Farage (votos que, com o agora mais fraquinho UKIP, e outros, ultrapassam os 36%). Na Hungria o partido Fidesz do nacionalista moderado Viktor Orbán voltou a ganhar, destacado, com 51% (e tem à sua direita ainda, um partido extremista com ca. de 10%). Na Alemanha, a nova extrema-direita do “Alternative für Deutschland” (AfD) baixou de 13 para 11% (nas eleições alemãs de 2018 elegeu 97 dos ca. de 600 deputados!). Na Espanha, o VOX, do basco Santiago Abascal (mais ou menos franquista) obteve agora 10%, embora para o que interessa (as eleições espanholas de há apenas 2 meses atrás) conquistou 13% do eleitorado.

  3. Para alguns, a Rússia deve ter “sarna”, ou coisa que o valha…).Recordem-se, a propósito, todos os obstáculos, artificiais e demagógicos, com que, nos EUA, Trump se depara, na tentada (e tão saudável) aproximação à Rússia (onde, será preciso recordá-lo, o comunismo acabou há já 27 anos, em 1992…). E agora foi o pretenso “escândalo Strache” na Áustria. Aqui, o partido da Liberdade (extrema-dir.ª austríaca), que ainda nas presidenciais de 2018 obtivera 49,5% do voto (mas perdeu), ficou agora em baixa por o seu ex-líder ter sido “apanhado” em negociações políticas privadas, em que discutia benefícios mútuos com uma sobrinha de certo oligarca russo. É preciso pois lembrar, a certas pessoas, que a Europa vai até aos Urais e inclui Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

  4. Uma anunciada derrota monumental de Rui Rio).Mas que nem assim “desampara a loja”… Todos nós já sabíamos que Rio é uma pessoa teimosa, auto-convencida, péssimo comunicador, falho de calma e paciência e um político de opções discutíveis. O que não imaginávamos era que estas qualidades, perante a evidência da forte derrota que acaba de sofrer (22% contra 33% do PS!) se tenham agora alcandorado a níveis quase patológicos de estridente negação da realidade presente… e das mais que sombrias expectativas de futuro (vide, nas próximas e importantíssimas eleições nacionais de Outubro de 2019). Ambição de manter, sem ter valor para tal, a liderança do PSD; mas completa falta de ambição (repetidamente confessada) de ultrapassar o PS nas próximas eleições! Daí que, se por tudo isto e agora, o PSD optar por mudar para um líder melhor, nunca sairá prejudicado, uma vez que Rio já há muito “atirou a toalha ao chão”… Um PSD desde Junho ou Julho liderado por Hugo Soares, Montenegro, Abreu Amorim (ou até Marco António Costa) seria vitória certa nas eleições de Outubro. Note-se que Rio teria obtido ainda menos votos, se Santana não tivesse tido o acidente de automóvel (e não tivesse escolhido o conformista dr. Sande para n.º 2). Só com um PSD “guerreiro” é que é possível contrariar a escandalosa subida geral das Esquerdas (note-se que BE e PAN somaram ao todo 15%!). Em contraste com os magros resultados do “Basta” (de André Ventura, que provava que é preciso trabalhar 7 meses para pagar os nossos impostos anuais); e do PNR (de João Patrocínio).

  5. Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”). Bem se pode pois, aplicar a Rio o dito de que “nem come nem deixa comer”. Ou, de modo mais erudito, a célebre pergunta , de Cícero, contra Catilina: “até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”.



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