Espaço do Diário do Minho

Braga no consultório de Agustina
9 Jun 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Os leitores perguntavam, Agustina Bessa-Luís respondia. O consultório sem limitações temáticas foi a fórmula que a revista Grande Reportagemencontrou para, a partir de Abril de 1985, acolher nas suas páginas a colaboração da escritora. Na rubrica intitulada “Se quer que lhe diga”, o objectivo era dar voz ao “mútuo conselho que pode haver entre cidadãos comuns cujas aptidões e hábitos de comportamento se encontram ameaçados por um dinamismo muitas vezes de acção demolidora”. O espaço não se afiguraria como um “consultório sentimental”, nem como uma “caixa do correio para desabafos convencionais que digam respeito à edilidade e ao médico”.

Certo leitor quis saber se a escritora acreditava que em Portugal se manifestava algum visceral antagonismo entre o Norte e o Sul. “Sou beirão, em pequeno vivi em Braga, hoje vivo em Lisboa. Sinto-me mais do Sul do que do Norte. Vindo do Norte, aprecio os barros de Barcelos e os romances de Camilo (julgo que ele é mais do Sul do que do Norte, é um escritor que Lisboa destacou para o Porto)… Haverá de facto um atávico ódio Norte-Sul?”, escreveu Dinis Jorge na Grande Reportagemde 26 de Abril de 1985. Para não fomentar qualquer eventual suspense, diga-se já que Agustina achava que não. Nem em Portugal há ódio Norte-Sul, nem em Camilo há paixões a sério: “O Amor de Perdição é um livro de neuras, manias, desentendimentos, tudo isso que há entre famílias sumamente provincianas em que a paixão parece mais o resultado duma purga, do que dum encontro de almas visionárias”. Para Agustina, tanto as paixões, quanto o ódio Norte-Sul, “precisam de espaço, de montanhas como os Apeninos, de planícies como o Vale do Pó, de bosques como a Floresta Negra.”

A longa resposta apresentava explicações sobre o papel do Porto e de Lisboa na harmonia do país e tinha a particularidade de incluir uma das parcas referências agustinianas a Braga. Foi, aliás, com ela que a autora iniciou as suas considerações. Dirigindo-se ao ocasional interlocutor, afirma: “O mal foi ter vivido em Braga em pequeno. Um beirão em Braga é coisa que não se imagina. Pelo menos nem Camilo o imaginava, porque fez descer as fidalgas pelos apeadeiros do Marão até à Foz, com uma sensatez topográfica tão essencial como a sensatez teológica. Mas que lhe deu, senhor, para das insidiosas rochas beirãs não cair directamente aos pés do Mata-Frades, em Coimbra? Ou nas tertúlias, senão do Nicola e do João-do-Grão, ao menos da opípara mesa das Letras a deitar por fora, que é a capital? Isso não se faz. Viver em pequeno em Braga dá de certeza uma indigestão de sarrabulho, sem o ter provado; e uma oura das voltas do malhão sem o dançar nunca. Em Braga nasce-se e estudam-se matérias doutrinais que se apuram em Lovaina; ou então sobe-se ao Bom Jesus, que é o Carmelo do emigrante antigo, saudoso de sítios verdes e rendilhados como é o Minho todo”.

Ao Bom Jesus, tinha Agustina ido em ocasião anterior, relatada a 3 de Setembro de 1976, noExpresso, a propósito do que sobre o lugar escrevera Camilo Castelo Branco. “O Bom Jesus, só por pirraça ocorre recomendá-lo às pessoas; não se parece às ravinas de Marte nem sugere Acapulco, mas mesmo assim é um sucesso. Eu fui lá um dia para me consolar não sei de que tristezas menores. Tudo tinha um ar de pobreza remediada, havia pastéis de feijão velhos de uma semana”. A autora de Fanny Owen(personagem que também andou pelo Bom Jesus do Monte) observa ainda, a contrastar: “Na subida estavam uns chalés parecidos aos que há em Zurique e onde vi Alexandre Soljenitsin. Com isto tapo a boca aos que me troçam destas paisagens que não incendeiam a imaginação de ninguém, mas que são melhores do que Zurique”. Do Bom Jesus, a escritora seguiu para Guimarães. Aí se lembrou de Braga. “Entre ambas as terras há certa birra que vem de más vizinhanças de nobreza e de clerezia”. O antagonismo Norte-Sul que não existia por falta de espaço afirma-se entre as duas terras encostadas. A rivalidade entre as duas cidades impõe cautela: “Por isso nos aconselham a não andar por ali [por Guimarães] a descobrir tesouros ou coisas fantásticas; os de Braga melindravam-se”. Agustina indica a razão: “Não têm eles as botinhas de brocado e de salto alto do cardeal pequenino? E lava-pés de prata?” Então partiram, ela e quem a acompanhava. Enganaram-se no caminho, o que, evidentemente, não teria sido necessário para evitar que os de Braga se melindrassem.



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