Espaço do Diário do Minho

Vícios do poder
7 Jun 2019
Artur Soares

Se um touro tivesse a noção da força que tem e, se tangido fosse para o corredor do matadouro, abalroava tudo e todos: muito dificilmente seria abatido. Esta afirmação para afirmar que o Povo, se soubesse a força que tem, dificilmente era enganado, vilipendiado. Mas o Povo português, até sabe que tem força: e porque consciente disso e devido a tanta vilanagem, prefere umas barriguinhas grelhadas, umas cervejolas e uns caldos verdes, que ir votar na “cambada”, que bem remunerada é.

Muito se falou e escreveu sobre as eleições europeias. Num país em que em cada dez eleitores só votaram três, é sinónimo de descrédito e que os políticos nem actores de terceira – de uma segunda categoria – conseguem ser. Estes cavalheiros – nem políticos lhes chamo – não saem da cepa torta: fazem campanhas eleitorais num modelo com mais de 40 anos de vida, beijocando à esquerda e à direita, não dizendo nada que ao Povo interesse, percorrendo o país a todo o gás, onde sempre chegam atrasados para nada dizerem. É evidente que, só um ou outro poderia dizer algo: ao que vem, que defende e que acção fará para bem do país. Mas a maioria dos candidatos, ao quererem mostrar que são estadistas e competentes, nada mais provam que são os chorudos euros que querem e que defendem.

Os resultados destas eleições europeias neste ano de 2019 deveriam pôr os Partidos Políticos em alerta máximo. É vergonhoso o desinteresse, a apatia e o descrédito que se nota a nível nacional. O Povo nada sabe do porquê na UE. E os candidatos se algo vão sabendo, escondem a UE ou conhecimentos não têm para falar de tal Barco. 

São muitos os motivos por que o Povo é abstencionista. Se um eleitor da direita política não vê/sente verdadeiros líderes a zelar pelos interesses nacionais – se um eleitor não vê/sente o centro político a governar com verdade e na verdade, como é o caso deste Governo – e, se comunista ou trotskista não é, parece justo ter o direito de não votar. E se alguma culpa têm os eleitores de exercerem o direito de não votar, culpa total têm os políticos que nos têm governado. Agustina Bessa-Luis, até escreveu que os políticos são como o vinho: “tanto podem sair bons como uma zurrapa”.

Arcaísmo da campanha eleitoral! Se atentos, quem são os acompanhantes dos tratantes, isto é, dos que tratam da política em campanha? Sobrinhos, primos, tios, empregados dos Partidos, etc. As campanhas eleitorais têm de mudar. Enquanto os candidatos apanham couves e grelos nas hortas e lixo nas praias para o eleitor ver, não formam e muito menos dizem.

Estes hábeis oportunistas do dinheiro fácil e dos vícios do poder que tanto mal tem feito a Portugal, não desarmam, adormecem o Povo, mentem-lhe simplesmente e não querem concluir que a crise existente, é não haver uma estratégia política visível e palpável, defendendo acerrimamente a soberania nacional, inclusivamente ter em conta a dívida portuguesa de 252 mil milhões, que este Governo/Geringonça dilatou até Abril passado. E se atrás se afirma que o Povo pode saber a força que tem, parece não ter memória fresca ou afiada para discernir sobre as grandes desgraças nacionais de 2017, de famílias inteiras no Governo a exercer funções e do grandioso número de políticos que nascem entre a corrupção e o roubo, que neles vivem e dos quais ninguém lhes pede contas e julgados não são.

Sócrates ainda não foi julgado e certezas não existem se o será; Passos Coelho lambe as feridas que a si mesmo fez no seu Governo, com a sua política rapace contra o Povo; Rui Rio vive em nevoeiro permanente; Assunção Cristas é banal; bloquistas e comunistas engolem Trotsky e Lenine. Socialistas, são praticamente semanais as notícias de saques, de habilidades, de aproveitamentos ilícitos de dinheiro, conforme o jornalismo de averiguação tem mostrado.

O Povo absteve-se nas eleições europeias, porque sente na carne e na carteira os vícios do poder. Pena é que os Tribunais portugueses trabalhem – não a gasolina – mas a petróleo das antigas candeias. 

Não se diz ao Povo que Portugal tem uma alta industria de caixões e uma miserável industria de berços; não se diz ao Povo que no tempo do Estado Novo as dívidas ao Estado eram cobradas com incentivos fiscais, com processos atempadamente organizados e, que agora, estes democratões atacam na estrada os contribuintes mesmo que seja inconstitucional; não querem saber estes deputados locais ou pró UE que temos hospitais que internam doentes nas casas de banho, etc. etc. Crises, atropelos à democracia, rapaces nas instituições do Estado e vícios do poder… eis o que não discutem cara-a-cara com os eleitores. 

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)



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