Espaço do Diário do Minho

Que diria Raul Ferrão do “jingle” da Antena 1?
28 Mai 2019
Eduardo Tomás Alves

  1.  Repescando dois assuntos já aqui tratados, em 2018). Uma vez que a nenhum desses assuntos aparentemente foi dada qualquer atenção relevante (por quem de direito), aqui os trago novamente. Um desses assuntos (o mais fácil de resolver) seria o da rápida e “premente” substituição do estridente e horroroso “jingle” da RDP 1 (em nome da nossa saúde auditiva, sossego e equilíbrio psico-emocional…); o qual “jingle” ou separador, costuma preceder e suceder a todos os noticiários, matutinos, vespertinos e nocturnos; quando não é mesmo “descarregado” uma, duas ou três vezes durante um qualquer programa. O outro assunto é um mero anseio de melómano muito conhecedor de variadíssimos reportórios… É a sugestão de que um dia, o actual Hino da República, obra cuja letra é “datada” (de 1890 e da crise do ultrapassadíssimo e empoladíssimo Ultimato Inglês); e cuja música (de Alfredo Keil) parece uma colagem de 2 ou 3 melodias algo desconexas e não muito inspiradas, pudesse ser substituído pela melodia inspiradíssima e empolgante de alguma das muitas marchas “populares”, que no séc. XX português foram compostas por criadores do calibre dum Raul Ferrão (1890-1953), dum Raul Portela (1889-1942) ou de outros: Belo Marques, Frederico de Freitas, Alves Coelho (pai), Jaime Mendes, João Nobre, etc.
  2.  A estridente e prolongada agressão do “jingle” da RDP). Recordo-me perfeitamente de, quando tive o privilégio de começar a colaborar aqui, no glorioso e hoje centenário Diário do Minho (corria o ano de 1998), já nessa altura ter abordado um tema idêntico com o então director, o rev.º cónego João Aguiar, esse notabilíssimo geresiano, que sempre foi profundo repositório de Fé, alegria, paciência e capacidade de comunicação. Devem ser atributos do pessoal da antiga Via Romana (a jeira, ou “Cesária”); os quais eu também partilho, porque também estou a essa via involuntariamente ligado, por ser originário de Azeméis, Feira, Famalicão, Coimbra e Santarém… Na altura, o problema era um outro “jingle”, o da TSF; o qual, tempos depois, acabou por ser substituído, ou abreviado.
  3.  Correndo a mudar de canal…). Em pessoas normais do juízo (“modéstia aparte”, como eu) o efeito que tais estridências sonoras produz é, numa 1.ª fase, correr-se ao aparelho de rádio para reduzir ou anular o volume sonoro; espera-se alguns segundos, põe-se alto outra vez e, continua-se a ouvir o noticiário ou o programa. Em “fases ulteriores”, digamos (i. e., quando começamos a irritar-nos deveras com o desplante, a audácia, a agressão), mudamos mesmo de canal e ouvimos as notícias na “concorrência”, na Renascença ou na TSF. Não que estas duas estações também não tenham uns separadores algo barulhentos, porém no momento actual não são tão incomodativos. A etimologia da palavra “jingle” (importada do inglês) é onomotopaica e quer dizer “tenir, chocalhar”, com a intenção de acordar ou chamar a atenção das pessoas.
  4.  E se substituíssemos os “jingles” por curtas melodias que todos conhecem?). De início, os noticiários até eram capazes de passar despercebidos. Porém, imaginemos p. ex., uma qualquer célebre melodia de José Afonso (“Fui à beira do mar, ver o que lá havia”, repetida várias vezes). Ou os acordes iniciais do fado “Dá-me o braço, anda daí”. Ao fim de algumas repetições, logo se criaria o reflexo condicionado de que aquilo era o aviso de que se segue o noticiário. Não pensem que, em nome do bom gosto e do sossego, estou a ser demasiado “radical”; é que, quando eu era pequeno e fui 4 vezes a Itália, ainda me lembro de que o boletim meteorológico na rádio era precedido de umas notas suavíssimas (de harpa?), que lembravam os pingos da chuva. E já agora, esse boletim era dado com solenidade e sem pressas, tão diferente do que hoje acontece…
  5.  A banda militar chinesa tocou Raul Ferrão, para o pres. Marcelo, em visita de Estado). Até parece que os sempre simpáticos (mas hoje demasiado ambiciosos) cidadãos que o reflectido Shi Jin Ping agora governa, leram o meu artigo de 6 de Fev.º de 2018, aqui no DM. Este artigo chamava-se “O Hino Nacional do país de Ferrão e Portela”; e nele se listavam algumas alegres e poderosas marchas populares daqueles autores, as quais um dia bem poderiam substituir a citada obra de A. Keil. Eu seleccionei 3: “Marcha de Alfama”; “Marcha de São Vicente”; e o “Balãozinho” (esta, sem os acordes iniciais). Os chineses seleccionaram uma 4.ª, de Ferrão, a famosa “Grande Marcha de Lisboa”, algo mal executada pela banda; o que é desculpável, a sensibilidade deles é diferente. Vieram-me as lágrimas aos olhos; e isso, também porque o pai do meu pai governou, nos anos 40, “uma parte da China”, na qualidade de secretário das Obras Públicas da pequena Macau. 
  6.  Notas finais). A melhor interpretação que conheço de marchas populares é da grande Beatriz Costa (edição “Caravela-EMI-Valentim de Carvalho”, de 1977 e 1996, sob o título “Grande Marcha de Lisboa”). O outro meu atrás citado trabalho no DM, é de 10-7-2018 (“A Grande Música, de Handel ao “jingle” da Antena 1”). E é dever da rádio do Estado dar Cultura ao Povo, não é o de o embrutecer.



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