Espaço do Diário do Minho

A informação deve favorecer a cultura do encontro A liberdade exige coragem e humildade
25 Mai 2019
Carlos Aguiar Gomes

A 8 dias do «Dia Mundial das Comunicações Sociais», gostaria de trazer para os leitores o essencial do que o Papa Francisco disse aos «Membros da Associação de Imprensa Estrangeira em Itália», no passado dia 18. Foi um discurso muito rico e profundo de ensinamentos.

Sublinhou o papel fundamental e mesmo indispensável dos jornalistas. Mas encareceu igualmente as qualidades que devem orientar tão prestigiosa actividade: a verdade e a justiça, para que a informação seja verdadeiramente um instrumento para construir e não para destruir; para as pessoas se encontrarem e não para se desencontrarem; para dialogarem e não para monologarem; para orientar e não para desorientar; para as pessoas se compreenderem melhor e não para se desentenderem; para caminharem em paz, e não para semear ódios; para dar voz a quem não tem voz, e não para ser megafone de quem grita mais alto.

Realçou ainda o valor e o papel da humildade, uma virtude essencial para uma vida espiritual séria e fecunda, mas que também pode e tem de ser: «um elemento fundamental da vossa profissão». Certamente que há características da actividade jornalística que têm enorme relevância: o profissionalismo, a competência, a memória histórica, a curiosidade, a capacidade de escrita, a habilidade de perguntar e aprofundar as questões, a velocidade das sínteses, a habilidade em tornar compreensível ao público aquilo que acontece. Todavia, prossegue Francisco: «a humildade pode ser o fecho da abóbada da vossa actividade».

O Papa esmiúça: «quanta humildade exige a busca da verdade, pois é cansativo ter de fazer muitas perguntas, não se contentando com as aparências». É preciso revestir-se de muita humildade para não dar por adquirido que se sabe tudo; e que é preciso investigar a fundo os assuntos, para evitar que certos títulos criem uma visão distorcida da realidade. E se uma clarificação deve existir sempre que se errou, o mal causado pela notícia incompleta ou em parte falsa, dificilmente restitui a dignidade atingida, sobretudo num tempo em que, através da internet, uma informação falsa pode difundir-se a ponto de aparentar ser verdadeira. Por isso, «deveríeis resistir à tentação de publicar uma notícia que não esteja suficientemente verificada».

Vivemos um tempo em que as coisas da informação giram a enorme velocidade, mas o jornalista não deve deixar-se dominar pela pressa e pelo frenesim. Deve tomar o tempo necessário para que ele mesmo compreenda o que se está a passar. Não pode limitar-se a repetir estereótipos, só para não chegar atrasado. Sobretudo num tempo em que tanta pseudo-informação utiliza uma linguagem violenta e depreciadora, com palavras que ferem e por vezes destroem as pessoas, é preciso calibrar a linguagem e proceder como aconselhava São João Bosco: «usar a palavra como o cirurgião usa o bisturi».

Num tempo em que, dizer mal dos outros e desqualificá-los, se tornou um hábito, é preciso «recordar-se de que toda a pessoa tem a sua intangível dignidade, que jamais lhe pode ser tirada. Num tempo em que muitos difundem fake news, a humildade impede de vender a comida estragada da desinformação, e convida-te a ofereceres o pão bom da verdade».

Um jornalista humilde é um jornalista livre dos condicionamentos, dos preconceitos e, por isso mesmo, corajoso. A liberdade de imprensa e de expressão é um indicador importante da saúde cívica de um País. Uma liberdade utilizada ao serviço do verdadeiro, do bem e do justo. Um jornalismo que ajude a construir uma cultura do encontro. Precisamos de jornalistas que estejam do lado das vítimas, de quem é perseguido, de quem é excluído, descartado e discriminado.

Um jornalismo que não deixe cair no esquecimento as guerras de vária ordem. Mas, sobretudo, um jornalismo que saiba olhar para o muito de bom que existe na sociedade e o dá a conhecer para que sirva de estímulo às pessoas. Felizmente, a realidade ainda é dominada pelas pessoas que não se rendem à indiferença, nem fogem às injustiças, procurando construir pontes com paciência e no silêncio.

«Há um oceano submerso de bem que merece ser conhecido e que dá força à nossa esperança». E nesta descoberta são especialmente perspicazes as mulheres: «que vêem e compreendem melhor, porque sentem melhor».

«Não esqueçais: o vosso trabalho, vivido em espírito de serviço, torna-se uma missão. Convido-vos a serdes um espelho que sabe reflectir esperança e semear esperança».



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