Espaço do Diário do Minho

Media, política e espectáculo
18 Mai 2019
Manuel Antunes da Cunha

“Uma estação que tem 50% de sharevende tudo, até o Presidente da República! Vende aos bocados: um bocado de Presidente da República para aqui, outro bocado para acolá, vende tudo! Vende sabonetes!” As declarações do então director-geral da SIC, Emídio Rangel, proferidas no âmbito do documentário “Esta televisão é a vossa” (Mariana Otero, 52 mn, 1997, ARTE) indignaram muita gente. Hoje, provavelmente, passariam mais despercebidas.

A primeira edição da revista Cristina(07/03/2015), com Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira na capa, vendeu mais de 110 mil exemplares. Três anos volvidos, foi a vez de António Costa ser tema de capa ao lado da célebre apresentadoraNo passado 7 de Janeiro, o Presidente da República telefonava em directo na estreia de O Programa da Cristina(SIC). Não tardou muito para que o Primeiro-ministro lhe seguisse os passos. Depois de Assunção Cristas (16/01) e Marisa Matias (28/02), foi a vez de António Costa (05/03) levar a família aos estúdios da SIC – tinham já feito a capa da revista Caras, em Dezembro de 2015 – para falar da sua vida privada, enquanto confeccionava uma cataplana. O talk-show registou a sua melhor audiência, com uma média de 745 000 telespectadores e um sharede 28,5%.

Há meio século, o marxista Guy Debord (La société du spectacle, 1967) fazia já uma crítica radical da mercantilização duma sociedade que produz sujeitos/consumidores através de um espectáculo permanente, uma forma de ideologia económica que legitima um sentido único da existência, de modo a manter sempre os mesmos no poder económico, sociopolítico e cultural. Na mesma altura, Edgar Morin dissertava sobre o processo de divinização das figuras públicas num Olimpo mediático (Les Stars, 1957) e sobre um novo individualismo “onde nada vem justificar o indivíduo a não ser a sua própria felicidade” (L’esprit du temps, 1962, p. 97).

Já há muito que o mundo da política enveredou pela dupla estratégia de promoção pessoal e exposição em situações banais (família, casa, férias, etc.) e de idealização das qualidades físicas e/ou comportamentais. Na sua teoria dos dois corpos do rei (The King’s two bodies, 1957), Ernst Kantorowicz mostrou como os monarcas possuem um corpo natural (normal e mortal) e um corpo político (idealizado e imortal). Não é por acaso que o retrato oficial de Luís XIV (Hyacinthe Rigaud (1701) aperfeiçoa o aspecto físico do Rei-Sol ou que A Coroação de Napoleão(Jacques-Louis David, 1807) integra a mãe do Imperador no centro da tela, embora nem sequer tenha assistido à cerimónia.

As elites democráticas retomaram idênticos procedimentos, já antes do advento do marketing político, das televisões privadas, dostalk-showsou da era da Internet. Em 1928, a revista francesaVumostrava o interior da casa de Edouard Herriot, com o então presidente da Câmara de Lyon, de pantufas, a beber café na sua biblioteca. Mais recentemente, a relação dúbia entre John F. Kennedy e Marilyn Monroe, a eleição da antiga estrela de cinema Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos (1981) ou os casamentos do chanceler Gerhard Schröder com a jornalista Doris Köpf (1997), do ministro-filósofo Manuel Maria Carrilho com a apresentadora Bárbara Guimarães (2001) e do presidente Nicolas Sarkozy com a cantora Carla Bruni (2008) ilustraram uma certa endogamia social.

Num tempo em que as diferenças ideológicas parecem esbater-se, o sistema da democracia representativa deriva cada vez mais para uma democracia da opinião. Primam os índices de popularidade, a proximidade com os eleitores (imprensa cor de rosa, talk-shows, redes sociais e exposição da vida privada), uma certa promiscuidade alimentada por políticos-comentadores e ex-jornalistas políticos, assim como a capacidade dos media ditarem os temas e os termos do debate. Em vésperas das eleições europeias, ainda nos admiramos com a falta de qualidade da campanha. É tudo uma questão de oferta e de procura, daquilo que melhor vende…



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