Espaço do Diário do Minho

O Condutor do General
17 Mai 2019
Artur Soares

Conta-se que o João teve de iniciar o cumprimento da vida militar e especializou-se como Cabo Condutor. Dias depois foi colocado no Quartel-General e, como era da terra do General, este, fez dele seu condutor pessoal. O João tinha tendências de acelera e o sr. General pedia-lhe calma, segurança, mais normalidade na condução do jeep. Certo dia o João, conduzindo sem a presença do sr. General, despistou-se e empanou metade do jeep. O veículo foi recuperado nas oficinas do Quartel e o João não foi responsabilizado, pois era da terra do comandante. Mais uns meses passados e o João teve novo acidente, por despiste, caiu numa rabina e morreu. Moral da história: o sr. General, ao não responsabilizar o João no primeiro acidente, colaborou, indirectamente, para o segundo e para a morte do João. Então o sr. General pensou: agora não posso fazer nada. 

Esta pequena história, que tanto pode ser verídica como não, aplica-se devidamente à vida civil portuguesa. O João desta história, pode muito bem ser todos os Joãos  eleitores de Portugal – todo o Povo. O sr. General pode muito bem ser todos os líderes políticos portugueses, isto é, todos os responsáveis pela governação do país, do jeep.

O país não anda a ser devidamente governado. Acelera-se desalmadamente a linguagem na Assembleia da República, onde muito se fala e muitíssimo pouco se faz. Fazem-se afirmações descabeladas, entra-se em faltas de respeito mútuo, que, perante o Povo, não representam a sua vontade.

Nunca como nestes últimos anos se falou e escreveu tanto sobre a existência da   cleptomania ou da vida rapace de dirigentes. A endogamia ou nepotismo são a grande realidade e a grande vergonha nacional, que provocam o desalento e a desconfiança desta gente que devia dar bons exemplos, porque colocam sem pejo, familiares nas áreas da governação, familiares que não foram eleitos, mas sim, pela surra, nomeados. O compadrio é, também, o grande cancro do Povo, pois este Governo de António Costa já fez cerca de quatro mil nomeações de companheiros, colegas, amigos dos amigos, esquecendo-se que os empregos da Função Pública – salvo raríssimas excepções – não tem nomeações, mas sim lugares a concurso público, para quem esteja interessado e qualificação tenha para concorrer.

Os generais da política portuguesa, os responsáveis pelo jeep – a Nação – facilitam na circulação séria do país, são pagos como querem e quanto querem, cai-lhes nos Partidos o dinheiro que querem e capazes não são de colocarem as fardas generalícias em ordem, isto é, transmitem aromas de maus cheiros, quer no aspecto, quer nas atitudes, quer no carácter: são uns generais que o povo sacode, não respeita.

Estamos em período de campanha para as eleições da União Europeia. Em qualquer canto e a qualquer hora do dia, o país é informado através da rádio ou da televisão o que esses generais pensam e o que pretendem para que o jeep nacional avance com normalidade, com realidade. E o que se constata? Que mais lhes valia estarem calados. Apenas lutam pelo poder, pelo dinheiro fácil, pelos seus interesses, etc., mesmo que o jeep (o País) caia na rabina. São generais sem farda de Estadistas, são servidores onde todos lutam uns contra os outros. Lutam por votos, escondem a verdade ao Povo, mentem descaradamente e  baralham até os mais rufiões. Contradizem-se, recuam, baralham e voltam a baralhar e, no fim, o Povo fica sempre com os duques do baralho.

Generais sem fardas de Estadistas! Sem leis que os responsabilizem pela anormal aceleração ou desaceleração do jeep nacional. Generais que ameaçam demitir-se e abandonar as tropas, usando habilidades, truques, ilusionismos constantes para desviarem os eleitores dos problemas que os definham e os colocam na rabina do dia a dia. Vemos estes generais – somente com garras para TER – através das televisões, não a dialogarem para descobrir caminhos para o bem comum, mas a digladiarem-se, com gestos incivilizados,  com olhos desorbitados, com as veias do pescoço dilatadas, com corpos inclinados na posição de, se me bates, levas, tudo acompanhado de termos que só os arruaças exibem. E em todos os quartéis generais tem de haver Generais que falem, que chamem a atenção de más conduções, que apontem acelerações perigosas ou desacelerações a passos de tartaruga, etc. para que não digam como o general do João: “agora não posso fazer nada”.

Somos um Povo, com Joãos bem intencionados, embora não tenhamos a memória de elefantes, e vivemos num Quartel em que apenas sobressai a riqueza que Deus nos deu: paisagens e praias maravilhosas, a par de um clima invejável. Precisamos de generais firmes, sérios com o Povo e justos, de forma que nenhum João se perca nas rabinas, pela insensatez de qualquer mal fardado.

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).



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