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Da instância ineludível à ineludível reflexão

“…a morte é a situação-limite. Não só é única e sem ensaio (…) como é, em si mesma, incomunicável.” (Azevedo, 2016) A morte é um evento universal e irrefutável, um encontro inevitável que queremos evitar sem sucesso. É familiar e quotidiana, mas ao mesmo tempo desconhecida, uma vez que quem morre é sempre «o outro». […]

Pável Modernell
25 Abr 2019

“…a morte é a situação-limite. Não só é única e sem ensaio (…) como é, em si mesma, incomunicável.” (Azevedo, 2016)

A morte é um evento universal e irrefutável, um encontro inevitável que queremos evitar sem sucesso. É familiar e quotidiana, mas ao mesmo tempo desconhecida, uma vez que quem morre é sempre «o outro». Também é aleatória, indeterminável, imprevisível, pelo que nos afasta das áreas seguras e confortáveis que insistimos em criar.

É no homem de Neandertal que surge uma estrutura de pensamento que aponta para a morte como uma sujeição ineludível de todos os seres vivos. Esta consciência leva à elaboração de conceitos que visam enfrentar a morte, integrando-a à existência. Em todas as sociedades humanas, a consciência da morte é o fenómeno que melhor desempenhou o seu papel na constituição das religiões e das filosofias. A perceção da morte é constituída pela interação de uma consciência objetiva que alerta para a mortalidade e uma consciência subjetiva que tenta proclamar uma vida após a morte (Morin, 1999).

Para a consciência coletiva, a morte em condições normais é uma exclusão temporária do indivíduo, que tem o efeito de fazê-lo passar da «sociedade visível dos vivos» para a «sociedade invisível dos ancestrais». A morte, como fenómeno social, é vivenciada como um trabalho duplo e doloroso de desagregação e síntese mental, que apenas uma vez concluído permite que a paz seja recuperada e se triunfe sobre ela – a morte. O luto marca o início de um estágio de transformação no relacionamento, que será o da relação entre «vivos e mortos». Cada grupo social percebe a morte através de seus próprios sistemas de pensamento. Em sua luta para superar essa angústia, os homens puseram em movimento diferentes mecanismos. Se todo fato social é uma forma de linguagem, a morte também é uma linguagem na medida em que está impregnada de significação.

No universo, todos os processos são estruturados e articulados de maneira dialética. Todo ser vivo nasce, se desenvolve, morre e transfigura. O ser humano vive seu compromisso existencial, sereno e calmo, e de repente a crise irrompe; é purificado, amadurece e cria outra ordem vital; isso, por sua vez, também desestabiliza e só recupera a serenidade quando elabora outro sentido de vida. Ao longo deste processo há uma experiência de vida, morte e transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese (Boff, 2006).

Não é fácil ouvir dizer que «a morte não existe», ela existe sim e por isso tem importância. Pode ser que ela não seja «o fim», uma vez que, na natureza nada se perde; em qualquer caso, pode ser «um fim», entre tantos recomeços. Se tudo acabasse com a morte, a vida seria uma doença mortal de transmissão sexual. Novas configurações individuais e sociais emergem desta experiência, que geralmente desconfigura a nossa vida quotidiana. Muitas coisas transformam-se a partir da morte, principalmente porque podem ser abertos espaços contemplativos e reflexivos, de encontro à vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Azevedo, M.C. (2016) Horizontes do morrer. In Jesuíno, J. & Oliveira, C. (2016) Do Luto. Ed Alêtheia, Braga.

Boff, L. (2006) A grande metáfora. Rede Voltaire, São Paulo.

Morin, E. (1988) El hombre y la muerte. Ed. Kairós, Barcelona.





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