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Notre-Dame: o sentir de les uns e les autres

O incêndio ocorrido na Catedral de Notre-Dame de Paris, numa observação mais atenta, poderá conter múltiplas dimensões, que vão para além da realidade dos factos, oferecendo-nos diferentes leituras e simbolismos, para não falar dos desafios que, necessariamente, colocará a uns e a outros. Mais do que explorar contradições fáceis, numa sociedade de contrastes, sobretudo a […]

Guilherme de Sousa Meneses
24 Abr 2019

O incêndio ocorrido na Catedral de Notre-Dame de Paris, numa observação mais atenta, poderá conter múltiplas dimensões, que vão para além da realidade dos factos, oferecendo-nos diferentes leituras e simbolismos, para não falar dos desafios que, necessariamente, colocará a uns e a outros.

Mais do que explorar contradições fáceis, numa sociedade de contrastes, sobretudo a francesa, antes e pós incêndio, talvez seja mais útil refletirmos juntos, sobre a oportunidade que tais circunstâncias poderão sugerir, a diferentes níveis.

Num primeiro momento, foi naturalmente comovente e de consternação geral, a dimensão do que ali aconteceu. Foi o “património” de todos que foi atingido, no coração da Europa, ainda que, naturalmente, com valores e sensibilidades distintas, para uns e para outros.

Assinalável como, num só dia, foram manifestadas vontades de disponibilizar importantes recursos financeiros, alocados à reconstrução da catedral, pela envolvência imediata de famílias e cidadãos franceses, que logo se associaram à reedificação. Também o estado francês manifestou a sua disponibilidade, para contribuir para a recuperação da catedral e o prazo, excessivamente curto para muitos, em que se propõe fazê-lo. Surgiram posteriormente, de várias partes do globo, inequívocas manifestações de solidariedade.

É naturalmente muito apreciável, esta parceria espontânea, na concertação do esforço do Estado e das famílias, para a preservação do que retemos como mais significativo, para o nosso sentir coletivo, sobretudo quando o definimos como identitário de valores comuns e universais.

Este exemplo de solidariedade e cooperação, independentemente do modo como, uns e outros o apreciem, poderia servir de estímulo, para se mobilizarem idênticos esforços, com o objectivo de, num livre, consciente, devidamente ponderado e empenhado exercício de cidadania, pelos meios proporcionados pelas democracias atuais, num prazo aceitável, se enfrentarem e resolverem, outros problemas que atingem a nossa sociedade, ferem a nossa sensibilidade de cidadãos e, no seio destes, particularmente a dos cristãos, para a preservação de outros valores que, pela sua relevância, não nos consentem ficar indiferentes.

Mas este acontecimento, para além de ter natural repercussão na sociedade civil, parece conter também, importantes desafios e mensagens, para quem vive como cristão, empenhado na sua igreja.

Este incêndio ocorreu no período da quaresma e em pleno início da Semana Santa. Não passou despercebido, o facto desta catedral, se situar na Île da la Cité, lugar do nascimento da cidade parisiense. Também sabemos que é a partir, precisamente, desta catedral, que se medem todas as distâncias oficiais em frança, sendo este o seu ponto zero.

Não poderia Notre-Dame, naquele período de quaresma e de Semana Maior, ter permitido “cremar” em si pecados individuais e coletivos, cada vez mais gritantes na nossa sociedade, mas também pelos quais, em particular a sua igreja, tem sido tão atingida e abalada, sugerindo um novo renascimento, de diferentes amplitudes?

Não poderia em Notre-Dame, ser este o momento “zero”, para o constante apelo lançado pelo Papa Francisco que, insistentemente, tem apontado a toda a Igreja e aos cristãos, o saírem juntos e devidamente preparados, para as periferias existenciais, geográficas e espirituais, como modo de prevenir alguma tentação, de se barricarem em pequenas “ilhas”, ou para as quais, forças nada inocentes, pretendem empurrar a Igreja, com a crescente perda de influência e de contacto com a vida concreta das pessoas, indo ao encontro das suas exigências atuais e de futuro?

Outro aspeto particularmente comovente deste acontecimento, foi quando o incêndio derrubou o Pináculo da torre central da catedral. E também aqui, o desafio que se coloca, é o de sabermos, uns e outros, que “pináculos” queremos reerguer e deixar de pé e quais os que poderão sucumbir às poeiras do tempo.

Se, depois deste acontecimento, como outros que nos interpelam, ficarmos apenas pela denúncia dos contrastes, ou por estes e outros paralelismos que se podem sempre estabelecer, não deixando de ser importante, não será manifestamente suficiente. Ficaremos sempre com a sensação de algo por cumprir que, como igreja e sociedade, continuará não só a não nos satisfazer, como e mais grave, a não contribuirmos, decisivamente, para a resolução de crescentes desigualdades e injustiças sociais e económicas.

Que nesta Páscoa, aceitemos os desafios do coração. Com Ele presente e Ressuscitado no meio de nós, renovemos o nosso espírito e encontremos a força para renovarmos a face da Terra.

Continuação de um feliz período de Páscoa!




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