Espaço do Diário do Minho

‘Portugal é Lisboa… o resto é (mesmo) paisagem’
23 Abr 2019
António Sílvio Couto

Há quem deduza esta frase duma obra de Eça de Queirós. No entanto, do lamento à realidade não estamos tão longe assim, seja lá qual for a área de intervenção, o campo de trabalho ou mesmo o setor de atividade… humana, económica, cultural ou mesmo espiritual/religiosa.

De que adianta os ‘rurais’ protestarem, se na capital se distribui o dinheiro, as promessas, as contas e as prebendas. De que adianta dizerem que isso está a mudar, se vemos que, numa singela decisão para repor os níveis de combustíveis acessíveis ao público, se privilegia Lisboa, a seguir vem o Porto e talvez mais tarde, se sobrar alguma coisinha, o resto da paisagem será contemplado…

Até já os estrangeiros concluíram desta (nossa) enfermidade e dizem que só dez por cento da despesa pública é gasta com a administração local. Podem as universidades da ‘paisagem’ apresentarem níveis de investigação, de qualidade de ensino, de boa relação instrução-emprego, que nada acontece sem o beneplácito lisboeta… agora mais alargado às fronteiras entre Setúbal e Vila Franca de Xira, no circuito de área metropolitana…

A macrocefalia da capital vai amedrontando a ‘paisagem’ e uma certa menorização de quem não faz parte dessa tal elite – política, económica, intelectual, religiosa, social e cultural – estende-se em aval de desconfiança e, por vezes, de subjugação para ainda conseguir recolher algumas migalhas que caiam da mesa dos ricos senhores, que nem sempre são senhores ricos.

Bastará sair desta bolha complexa – às vezes é mais complexada – da área metropolitana da capital para perceber que muitos, que vivem na ‘paisagem’, ainda não se aperceberam do ostracismo a que estão votados. Por estes dias vivi uma dessas experiências ao ter ido participar na celebração do centenário do jornal ‘Diário do Minho’ e não ter visto rastos de qualquer órgão de comunicação social de imagem, fazendo ignorar uma efeméride de realce para a região, a cidade e mesmo a Igreja católica. E não vi qualquer desconforto no ato, por parte dos responsáveis, não tendo sequer percebido se tal aconteceu por opção, por lacuna ou por mera coincidência ou já por hábito em se ver ignorado, sem voz/imagem e, por isso, fora das notícias…dado que aquilo que não se mostra não existiu!

= Repare-se na ausência de figuras que surjam de fora de tal circuito – por vezes, queiram desculpar, mais parece um circo – onde quem se diverte como público-alvo faz parte do elenco de quem se exibe. Veja-se o campo da política, onde se vai fechando o leque das escolhas nas mesmas famílias – como a história se repete com tanta facilidade! – e se vai arregimentando do mesmo caldo quem há de depois favorecer os que agora governam. Que dizer ainda das opções para lugares de responsabilidade na Igreja católica. Uns promovem os outros para que (quase) tudo continue na mesma e não se façam ondas que destoem da mentalidade reinante. Porque será que algumas dioceses já há vários anos não têm escolhas reconhecidas por quem apresenta os candidatos? Será por inépcia dos responsáveis, por falta de qualidade dos possíveis servidores ou por incapacidade de os fazer valer nas instâncias de decisão? Neste campo em concreto algo vai mal para certos círculos de intervenção, enquanto outros – talvez mais sagazes e habilidosos – estão quase sempre na linha de chegada… Mesmo assim cresce o número dos despromovidos à escala do país e da intervenção reflexiva, teológica e pastoral.

= Somos um país pequeno em dimensão territorial, mas apequenamo-nos ainda mais quando uns tantos se acham no direito de menosprezar quem não faça parte do seu âmbito de influência, privilegiando mais o clientelismo do que a qualidade, favorecendo mais a partidarite do que a competência, relegando para fora da corrida quem não alinhe na vulgaridade, na superficialidade e, mais recentemente, no nepotismo descarado. Caminhamos a passos largos para meio século da revolução abrilina e os tiques de ditadura só mudaram de cor, pois algumas autarquias estão em ditadura quase há mais tempo do que o regime anterior: todo o resto da população não evoluiu na mentalidade, quando as ideologias que tais suportavam já claudicaram há três décadas!

O mais grave é quando os que vieram da ‘paisagem’ se acomodam à capital e fazem pior do que antes!



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