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Diário do Caminho: Um desafio que me chama para a luta…

1ª etapa – Valença / Mos.

5 Abr 2019

E eis que chega o grande dia. Pouco antes das 7h00, hora marcada para chegar à escola, já sensivelmente metade dos participantes se encontravam por lá pois, temiam perder a viagem de finalistas. Dados os bons dias, pouco depois começamos a carregar sacos, sacões, mochilas e mochilões na enorme carrinha de apoio. Feita a reunião geral onde se entregaram os coletes refletores e se confirmou a presença de todos os inscritos, fizeram-se apresentações, deram-se primeiras informações, tirou-se a foto de grupo e, o diretor da escola, entre elogios à atividade e ao que ela pode significar para cada um, desejou a todos um bom Caminho.

Partimos de autocarro para Valença, e aproveitando o percurso entregaram-se road-books e credenciais alertando para a necessidade de colocar um primeiro carimbo nas mesmas em Valença, para assinalar o início da caminhada a mais de 100 km de Santiago para, quando da chegada, receber a respetiva Compostela (diploma que confirma a peregrinação).

Leu-se o pensamento do dia (tirado do livro – “Não há soluções , há caminhos” de Vasco Pinto de Magalhães, sj), atividade obrigatória antes de iniciar qualquer etapa. Em determinado momento da leitura ouviu-se “…posso olhar o dia como um peso que me cai em cima ou como um desafio que me chama para a luta…”.

O pensamento adivinhava a manhã e eu senti-o, primeiro ao atravessar a ponte pois, ao fazer os 318 metros da mesma, “perdemos” uma hora, uma vez que saímos de Portugal pelas 11h00 e quando chegamos ao lado espanhol… já passava do meio dia. Motivo? Talvez o excesso de peso que os alunos transportavam. Sabemos de fonte segura que as mochilas vinham atulhadas de panados, rissóis, bolinhos de bacalhau, polvo, bifanas, atum, chouriço, presunto, etc. Como professor e um dos responsáveis da atividade, na hora de almoço, senti-me na obrigação de provar alguns dos produtos para aquilatar e informar, ao pormenor, o limite de calorias a ingerir por cada um. X Caminhos no curriculum, colocam-me na linha da frente para perceber a quantidade calórica ideal. Também tive como missão verificar peso dos sacos, das meninas, principalmente. E aí, entendi a parte do pensamento do dia “como um peso que me cai em cima”.

A uma das donzelas que acompanhei no período da manhã e já quase se arrastava, perguntei o que lhe doía, as pernas ou os pés? Respondeu, as costas. Fui tomar o peso à mochila e…fiquei siderado, pois já conheci peregrinos em autonomia com menos peso às costas do que aquela aluna. Levava a comida toda porque…não coube no saco, junto da roupa. Primeiro apeteceu-me “bater-lhe”, depois…optei por trocar de mochila com ela. Quando colocou a minha, disse – professor o que leva aqui? Isto não pesa nada. Lá expliquei que levava um par de meias, um polo, uma t-shirt, pomada para os pés, óculos de sol, chapéu e…cartão multibanco. Ao almoço metemos a mochila dela na carrinha, ela sentiu-se mais leve e eu…nem digo nada.

Durante a tarde tudo correu pelo melhor e aproveitou-se para umas compras de última hora, devido a esquecimentos básicos. Atravessamos Porriño e a qualidade da organização já chega ao ponto de termos walkie talkies para sabermos quem anda, onde. À habitual pergunta, informe posição, a resposta variava entre “ao km 107; ao km 105, ou…sentado a beber uma caña”

O local de pernoita foi sensivelmente no km 97 (número de km em falta para Santiago, devidamente assinalados nos marcos). Uma vez que ao sairmos de Valença assinalava 117 km, supostamente, teríamos andado 20 km. A verdade é que graças às tecnologias, todos sabemos quantos quilómetros fizemos, e hoje foram 26 km. Ao atravessar a ponte, os nossos amigos galegos comeram-nos uma hora mas em contrapartida, ofereceram-nos 6 km.

Hoje ao jantar, no “restaurante bancada” de um pavilhão desportivo, em Mos, um arroz divinal acompanhado com panados, vindos expressamente de Vila Verde, foi visto como um manjar dos Deuses. Uma aluno confidenciou-me a sua surpresa, porque farto de ouvir falar do Caminho, sempre pensou que era…um caminho sempre em terra. Esta juventude surpreende-me a cada dia.

Para amanhã Mos – Pontevedra, temos previstos 31 km, vamos ver se não somos presenteados com mais alguns e se todos continuam em forma como mostraram hoje ao aproveitar o pavilhão para praticar futsal e futebol americano.





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