Fotografia: Luísa Teresa Ribeiro

Mais de três mil visitam Galerias Romanas de Lisboa

Inscrições esgotaram e monumento com mais de dois mil anos só volta a abrir ao público em setembro.

Luísa Teresa Ribeiro/Lusa
30 Mar 2019

Mais de três mil pessoas vão passar, até amanhã, pelas Galerias Romanas, na Baixa de Lisboa. A abertura ao público desta estrutura romana com mais de dois mil anos conta, pela primeira vez, com visitas guiadas para escolas e em língua gestual portuguesa para públicos surdos e com deficiência auditiva.

Na rua da Conceição, em pleno centro histórico lisboeta, algo insólito está a despertar a curiosidade dos transeuntes: junto ao número 62, há uma abertura na estrada, por onde estão a entrar e sair pessoas. Trata-se do alçapão que dá acesso às Galerias Romanas, que abrem duas vezes por ano.

Umas escadas íngremes dão acesso a esta construção do século I d.C.. Como é explicado durante a visita, que o Diário do Minho acompanhou, em conjunto com uma turma de jovens estudantes, trata-se de um criptopórtico, uma solução arquitetónica que criava, em zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos.

Esta estrutura foi descoberta em 1771, aquando da reconstrução da cidade devido ao Terramoto de 1755. A estrutura que serviu de base aos grandes edifícios romanos também serviu de alicerce para os imóveis pombalinos. Dois mil anos depois, continua a ter a mesma função para a qual foi construída, sustentando os prédios da baixa da capital.

Possivelmente devido aos tremores de terra, embora não se saiba exatamente quando, as galerias ficaram inundadas com a água das ribeiras que correm no subsolo lisboeta (as ribeiras de Regueirão dos Anjos e de Valverde encontram-se no Rossio, junto ao Teatro D. Maria II, seguindo em direção ao Tejo), tendo servido como cisterna.

Diz a história que a população considerava aquela água boa para os olhos, mas acabou por se revelar prejudicial para a saúde dos lisboetas. O caso chegou ao Senado de Lisboa em 1869, que mandou tapar as galerias para impedir a circulação da água e decretou o encerramento das bocas de cisterna que entretanto tinham sido construídas. No início do século XX, estas galerias ficaram conhecidas como as “Conservas de Água da Rua da Prata” precisamente por terem sido utilizadas pela população como cisterna.

As interpretações relativamente à natureza desta construção têm variado ao longo do tempo, tendo-se chegado a pensar que se tratava de uma extensão das grandes termas romanas da encosta do castelo. No entanto, a tipologia de construção, sem a beleza caraterística das termas romanas, levou a que a teoria relativamente a esta função tenha sido abandonada na década de oitenta.

Segundo os especialistas, a descoberta de uma inscrição consecratória a Esculápio, Deus da Medicina, que se encontra atualmente no Museu Nacional de Arqueologia, poderá ser uma confirmação do caráter público deste edifício. A inscrição está feita em nome de dois sacerdotes do culto imperial e em nome do Município de Olisipo (nome romano da atual capital portuguesa).

Segundo a coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano, Lídia Fernandes, as Galerias Romanas podem ter funcionado como estrutura de apoio a um cais de desembarque, «uma vez que a linha de costa era mais para norte do que é hoje», além de poderem ter servido para «suporte de uma grande praça pública, fórum ou termas, ou mesmo templos».
«Há várias hipóteses, tudo depende do que se vai encontrando nas intervenções urbanas que vão sendo feitas pela cidade de Lisboa», afirmou, acrescentando que também não é possível responder com exatidão à questão da área que toda a estrutura ocupa na cidade.

De acordo com Lídia Fernandes, aquilo que hoje se visita «é cerca de um terço daquilo que foi conhecido em levantamentos anteriores, nomeadamente em meados do século XIX, sendo que não se conhece a sua totalidade».
«Estende-se em quase todas as direções, não se sabe até onde vai, esse é o aspeto mais curioso», frisou, lembrando que «o que sabemos atualmente permite dizer que é uma plataforma artificial enorme que permitiu o desenvolvimento da cidade romana para este lado citadino».

«Foi um planeamento urbanístico feito nos inícios do século I. Não pode ter sido uma obra feita por uma pessoa privada, ou duas ou três, foi uma obra mandada fazer pelo Imperador ou Governador de província», concluiu.

Atualmente, quando se encontra fechado, o monumento romano tem um nível de água superior a um metro de altura, havendo por isso necessidade de uma operação de bombeamento da água de aproximadamente sete horas para possibilitar a visita ao seu interior, seguida de limpeza e colocação de iluminação para que as visitas se realizem em segurança.

«Desde que o monumento foi descoberto, em 1771, tem um comportamento muito estável debaixo de água e com um nível de humidade altíssimo. Não convém secá-lo muitos dias seguidos porque pode haver consequências danosas para este património que tem duas vantagens e/ou importâncias vitais: uma é ser do século I, temos às nossas costas dois mil anos de história, e outra é sustentar ainda hoje os edifícios pombalinos», sintetizou Lídia Fernandes.

A responsável adiantou que toda a estrutura visitável é, «do ponto de vista da engenharia, absolutamente extraordinária», lembrando que «não foi abaixo com o terramoto», o que faz dela uma construção «altamente antissísmica de suporte a edifícios que estavam construídos em cima, que poderiam ter sido grandes e de uso público, com muito peso».

As galerias possuem «diferentes alturas», de acordo com Lídia Fernandes, criadas «para que houvesse uma boa distribuição das forças» pois o objetivo era «constituir uma plataforma horizontal que nivelasse o terreno na parte superior que permitisse a construção em cima das galerias». As fendas existentes na estrutura estão a ser permanentemente monitorizadas por fissurómetros.

A responsável adiantou ainda estar a ser pensada a criação de um núcleo interpretativo que permita disponibilizar a informação que se conhece sobre as Galerias Romanas com visitas virtuais.

A próxima abertura da Galerias Romanas está agendada para setembro, mantendo-se o modelo de inscrição exclusivamente através de uma plataforma na Internet, sendo a reserva confirmada após o levantamento do bilhete (no prazo de três dias) nos núcleos do Museu de Lisboa: Santo António, Teatro Romano ou Palácio Pimenta. Os bilhetes não levantados são disponibilizados novamente na plataforma. As inscrições costumam esgotar em poucas horas, como aconteceu desta vez, por isso interessados devem manter-se atentos ao sítio do Museu de Lisboa na internet e à sua página no Facebook.





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