Fotografia: Ana Marques Pinheiro

«Quem acredita na democracia tem o dever de combater o populismo enganador da vontade dos povos»

Arcebispo Primaz lança o debate sobre “Populismos”, na abertura do Ciclo de Conferências Nova Ágora, em Vila Nova de Famalicão

Alexandre Gonzaga
29 Mar 2019

O Arcebispo Primaz abriu o Ciclo de Conferências Nova Ágora, dedicado aos “Olhares sobre os Populismos” com um forte apelo ao envolvimento dos democratas na vida política nacional, num desafio a todos aqueles «que acreditam na democracia, liberdade, tolerância» e que «têm o dever de combater o populismo enganador da vontade dos povos».

D. Jorge Ortiga começou por sublinhar a «consciência missionária onde cada um assume nesta terra» a responsabilidade de evitar esta tendência política.

«Insatisfeito e preocupado com os caminhos que a sociedade atual está percorrer», o prelado sublinhou que «a sociedade constrói-se com a participação de todos».
«Depois da destruição das últimas duas guerras mundiais, movimentos populistas ganharam nova forma. Os alertas foram muitos e, apesar dos apelos públicos, a adesão de pessoas de diversas faixas etárias é uma realidade», referiu o responsável, que «encara com preocupação o populismo».

«Um estudo recente realizado em 31 países europeus refere que nos últimos 20 anos triplicaram o número de votos e os políticos de partidos populistas já exercem cargos ou poderes em diversos países», realçou.

«Em Portugal não podemos descartar esta ameaça», avisou.

O primeiro orador da noite, Paulo Rangel, alertou para «o fim das mediações, o ódio ao Parlamento», cultivado através das redes sociais. «Os políticos são uma mediação. Decidem em nosso nome, são nossos representantes. O populismo é o reino das paixões, da democracia direta, a ligação do líder diretamente ao povo», explicou o candidato social-democrata à eleições europeias, que afirmou que «com as redes sociais houve uma diminuição da importância dos meios de comunicação social».

«A participação na esfera pública era mediada pelos televisões, jornais e rádios. Com as redes sociais, tem-se a sensação de que se participa [na vida pública]. Consequentemente, nota-se que o ódio, tribalismo, facciosismo se encontra nas redes sociais. Estamos a criar a perversão máxima dos populismos que é a democracia direta», referiu o vice-presidente do Grupo Parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE).

Por sua vez, José Filipe Pinto, destacou que, «em Portugal existe Populismo». Para o professor catedrático da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, «20,05% dos partidos políticos em Portugal são populistas», existindo no nosso país 0,5% populismo de direita e 20% de esquerda.

«O Populismo está a orientar a agenda portuguesa e em breve sofreremos as consequências disso», referiu, numa crítica ao discurso mais “soft” do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em relação a esta temática.

«Hoje o discurso populista tem a musicalidade atrativa do canto das sereias», avisou.

No Grande Auditório da Casa das Artes famalicense, Felipe Pathé Duarte questionou, entretanto, se o populismo «é um fator estrutural ou conjuntural, uma patologia social e político». Com o populismo aparece «uma espécie de galvanização moral», «um lastro social que se transforma num movimento político, que, através da retórica coloca o povo contra o poder», disse.

O professor auxiliar no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna indicou  ainda uma faceta importante do populismo: uma pretensa «elite corrupta – establishment – é permanentemente colocada em causa». Os líderes populistas «são os “puros” que alterarão as circunstâncias da crise, que é, de uma certa forma, uma ação subversiva. Rudes, com linguagem direta e altamente provocatória», os seus líderes «apontam sempre para a crise que leva à galvanização moral do movimento», explicou o consultor para as áreas de geopolítica, análise de risco e segurança e comentador residente de assuntos de segurança internacional na RTP.

«O discurso é antipolítico, anti-intelectual e anti-elite», caracterizou Felipe Pathé Duarte.

[Notícia completa na edição impressa do Diário do Minho]





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