Espaço do Diário do Minho

E depois da dádiva de sangue?

29 Mar 2019
Carmo Lopes

No âmbito do Dia Nacional do Dador de Sangue, celebrado a 27 de março, importa abordar o que acontece ao sangue após a dádiva. O que se passa longe do público será um processo simples, rápido ou é um processo complexo e demorado? Vejamos passo a passo.

Após a colheita o sangue do dador é estabilizado a temperaturas de 20 a 24 ºC durante quatro horas para que alguma bactéria que esteja presente no sangue seja destruída pelos glóbulos brancos. Depois o sangue é passado por uns filtros (filtrado) que vão reter esses glóbulos, bactérias e alguns vírus.

No passo seguinte o sangue é separado nos seus vários componentes por centrifugação a velocidades diferentes: glóbulos vermelhos, plaquetas e plasma.

Os glóbulos vermelhos são guardados a 4-6ºC e podem ser utilizados durante 40 dias. As plaquetas são mantidas a temperatura ambiente em agitação permanente e podem ser utilizadas durante 5 dias. Os plasmas são armazenados a -20ºC e podem ser usados durante dois anos após um processo complexo de quarentena.

Esta é a primeira fase do processo. A segunda fase é passada nos laboratórios para classificação do grupo sanguíneo ABO e Rh (positivo ou negativo) e muitas vezes nos outros 21 sistemas de grupos sanguíneos, como por exemplo Kell, Duffy, Kid, etc.

Para segurança do dador e do doente são efetuadas análises para aferir se o sangue da dádiva não tem vírus que podem infetar os doentes: Hepatite B, Hepatite C, HIV, Sífilis, e outros vírus menos habituais.

Esta etapa reúne dois tipos de teste que aumentam a segurança para o doente e impedem que este possa ser infetado: uns que pesquisam os anticorpos e antigénios dos vírus e outros que detetam pequenas partículas dos próprios vírus que nos permitem ter uma segurança próxima dos 100%. Embora a maior segurança nos seja dada pelo dador na sua honestidade e no seu comportamento.

Após serem cumpridas todas estas fases e depois de o sangue ser validado (de reunir todas as condições de segurança para poder ser usado) será disponibilizado para poder ser transfundido aos doentes que dele necessitem.

Está terminada a fase laboratorial da obtenção dos componentes sanguíneos com segurança e qualidade.

Os glóbulos vermelhos vão ser usados em muitas situações de anemia (acontece quando os glóbulos vermelhos deixam de ser capazes de distribuir o oxigénio ao organismo de forma eficaz) como sejam doentes com anemias crónicas, anemia do cancro, anemia dos bebés prematuros sejam em situações de perdas de sangue agudas por acidente, fraturas, cirurgias, hemorragias pós-parto, etc.

As plaquetas são utilizadas em situações em que há uma baixa do número de plaquetas como em doentes com leucemias, doentes a efetuar quimioterapia, em situações de traumatismos com hemorragias graves.

O plasma é usado para tratar doentes com alterações da coagulação que estejam a sangrar ou que precisam de cirurgia. O plasma permite que o sangue coagule melhor e o doente deixe de sangrar.

A última fase do processo é a transfusão de sangue da dádiva do dador aos doentes.

Mais uma vez, é um processo laboratorial complexo que se traduz num processo demorado e minucioso o de transfundir um sangue compatível entre o dador e o doente.

São determinados os grupos do doente e confirmados os grupos do dador, são escolhidos os sangues com grupos iguais. Muitas vezes os mesmos grupos ABO não são compatíveis (como exemplo o grupo O pode não ser compatível com todos os doentes de outros grupos).

Depois são efetuados testes laboratoriais para determinar a compatibilidade entre o sangue do dador e o sangue do doente. Sendo compatível, o sangue é transfundido e é fechado o circuito dador-doente permitindo tratar/salvar o doente numa grande maioria dos casos.

Tudo isto que não e visível para o público em geral é um processo que envolve muitos profissionais, complexo, dispendioso mas que só é possível com a colaboração do dador que dá sangue para podermos salvar vidas.



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