Espaço do Diário do Minho

Apanhados 6
20 Mar 2019
Dinis Salgado

1 – Sempre pensei que para celebrar o centenário da morte do poeta João Penha que viveu na nossa augusta, bimilenar, dos Arcebispos e barroca cidade de Braga, a Câmara Municipal, através do respetivo pelouro, ordenaria uma barrela ao pseudo-jardim do Largo com o seu nome, mas enganei-me redondamente; todavia, não dá mesmo para entender o esquecimento a que está votada a área envolvente ao busto do distinto poeta parnasiano. 

Será que mora nos pelouros da Cultura e do Ambiente alguma animosidade contra a poesia e seus cultores? Ou, então, são estes produtos que eleitoralmente poucos ou nenhuns votos recebem, contrariamente aos futebóis? 

Bom, seja o que for, a verdade é que uma lavagem à peanha que sustenta o busto, mais suja do que a linguagem política de certos políticos, bem como a implantação de um jardinzito, modesto que fosse, não são ações que levem a Câmara Municipal à falência, como podem ser, por exemplo, os gastos que sustentam a atividade no estádio da Pedreira; ademais, bastava que, aquando do arranjo floral da Avenida, por sinal e finalmente bem janota, para ali se mobilizasse a brigada do trator, do escovilhão e do ancinho, pois tenho a certeza de que, com meia dúzia de espécies sobrantes da operação cosmética e uma hora de trabalho, se transformaria o Largo num brinquinho. 

Depois, sendo este Largo João Penha uma das zonas da cidade assaz visitada e povoada, não dá para entender tanta displicência e há tanto tempo; a não ser que os respetivos pelouros da Câmara não sejam sensíveis ao problema e, como diz o sábio povo, para quem é, bacalhau basta; ou, pura e simplesmente será que para eles, embora erradamente, a poesia do João Penha é quadrada ou bicuda? 

Porém, uma coisa é certa: mesmo que a mão me doa, porque ainda escrevo à mão, enquanto o Largo João Penha não alcançar a dignidade ambiental que merece, como é de bom-tom e mérito cívico, gastarei papel e esferográfica em sua defesa; e, simplesmente, com o único gozo que me advém do direito de cidadania que me assiste e deve enformar todo o cidadão defensor das coisas da sua cidade. 

2 – Voltemos, agora, às zonas do KISS & GO que criadas foram junto dos estabelecimentos de ensino da cidade, onde a recolha e entrega de alunos automobilizados é problemática, devido à difícil paragem e estacionamento que por aí reina; e já aqui aplaudi justamente a medida como sendo de efetivo, vasto e feliz alcance. 

Só que, como não há bela sem senão, nem rosa mais linda que não tenha espinhos, o corredor azul que sinaliza a zona de entrega e recolha de estudantes vai perdendo a tinta, como acontece já frente à Escola Secundária Carlos Amarante. Será que o pintor revelou falta de arte e brio ou o pincel primou por excessos de frouxidão? 

Seja como for, o certo é que do jeito que a coisa vai nem o KISS tem forma de acontecer, e o GO, assim, se transforma em NOT GO; certo e sabido que para dar uns beijinhos só mesmo com a besta atrelada e em segurança. 

Depois, com a bagunça reinante no estacionamento automóvel que abunda na cidade, não há corredor azul, amarelo ou às riscas que possa assumir o papel para que foi criado; além disso, sem fiscalização constante e musculada, é ver quem mais estaciona e pelo tempo que entender em tão nobres zonas da cidade; o que leva a que se diga em abono da verdade: abençoados espaços que nos criaram e à borla para atrelarmos as bestas. 

Então, visto isso e os atos, das duas uma: ou se deseja um KISS & GO funcional, mesmo que ardente, agindo como manda a sapatilha à sapateiro de Braga contra os prevaricadores, ou, pura e simplesmente, se deve transformar o KISS & GO num cartaz excelente para que os casalinhos junto dele saquem umas selfies à maneira e as tornem virais no facebook. 

Como diria o saudoso Fernando Pessa: E esta, hem?

Então, até de hoje a oito.



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