Espaço do Diário do Minho

Nós, os escravos do electrão
19 Mar 2019
Eduardo Tomás Alves

  1. Em 1974, diziam querer cá instaurar a Liberdade).Eu, que os vivi na adolescência, recordo agora com ironia (e alguma piada) aqueles tempos, prenhes de promessas, a maioria vãs. Os 2 grandes argumentos de fundo, que prepararam e fizeram triunfar o golpe e a revolução de Abril de 74, foram o fim imediato da guerra colonial (com a óbvia e covarde desistência de todas as vastas e ricas possessões ultramarinas na África); e a sedutora (e quase sempre irresistível) promessa de aumento da Liberdade política das pessoas. Na altura pensava-se (hoje, nem tanto…), que pois, “que mal haveria em dar todo o poder decisório ao povo comum, pois as pessoas, o povo comum é sábio, nunca falha?”. O certo é que, contra a vontade do PCP (e de algumas pequenas forças da extrema-esquerda) a aliança objectiva das direcções de PS, PSD e CDS lá garantiu por mais de uma década, quer a independência total de Portugal, quer a tal “liberdade individual” que o meu trabalho de hoje procura sinteticamente escrutinar.

  2. Porém, Maastricht dum lado e a Electrónica do outro…). Pois, Portugal, país que não sendo propriamente pobre, lá arranja sempre maneira de pesadamente se endividar, optou pelos abundantes subsídios da CEE para gradualmente ficar dela cada vez mais financeira e politicamente dependente. Sobretudo depois do nunca referendado tratado de Maastricht de 1992, que objectivamente significou a hipoteca, até hoje, da nossa independência política. Se o processo da eufemisticamente chamada “integração” europeia foi sempre conspícuo e evidente para aqueles que têm estado atentos, já paralelamente, a drástica e gradual diminuição da Liberdade Individual das pessoas, pelo crescente processo de penetração (e controle) da Electrónica nas nossas vidas particulares, é um fenómeno mais recente. E que, pela maioria das pessoas ainda não foi minimamente apreendido.

  3. Tudo começou com o fascínio pelos telemóveis). Para muitos (para mim, não…) a ideia de estar a toda a hora e em qualquer lugar, contactável por telefone (agora, sem fios) parece ter sido um agradável milagre concretizado. Porém, por telemóvel não somos apenas contactados por familiares e amigos. Por ele também nos chegam más notícias que só gostaríamos de conhecer mais tarde; ou compromissos, novos trabalhos que vêm cortar o nosso descanso. Ainda me lembro dum parente meu por afinidade, bancário, fisicamente parecido aliás com o espião-heroi da antiga série “Get smart” ( “Olho vivo”), que nos anos 90 se deleitava com aquela nova invenção.

  4. Telemóveis, escutas e geolocalização).Só que, os telemóveis e outros dispositivos (o GPS, p. exemplo) intercomunicam-nos através das centenas de satélites que estão no espaço. E cujos computadores (em Espanha diz-se “ordenadores”) nos escutam e guardam nas suas super-memórias todos os dados referentes às nossas deslocações, mensagens e telefonemas. Tudo fica para sempre gravado. O sonho de qualquer antigo agente da PIDE ou do KGB concretiza-se agora; e sem qualquer espécie de violência associada. O nosso Estado (e outros Estados estrangeiros e organizações potencialmente hostis) estão sempre, agora, a vigiar os cidadãos. Os quais continuam deleitados com todos estes novos brinquedos para gente tida por “crescida e madura”. Cidadãos que pensam que estes “brinquedos” os tornam cada vez mais livres, capazes e poderosos; apesar de os factos evidenciarem o contrário.

  5. Uma sociedade sem Privacidade é uma sociedade sem Liberdade).À 1.ª vista, uma coisa parece pouco ter a ver com a outra. Porém, não é assim. Toda a gente tem os seus pequenos ou grandes “segredos”. E se a Electrónica passou a ter o poder de devassar esses segredos, os cidadãos passam a vida a procurar ter apenas os comportamentos que não revelem a sua vida privada (a qual, antes da devassa electrónica era bem mais fácil de esconder). Nessa medida, perdem grande parte da liberdade (de atitudes e movimentos) de que antes desfrutavam.

  6. A Electrónica torna-se assim, uma inimiga da Democracia). A Electrónica, sem querer, acaba por nivelar os sistemas políticos. Há muito menos diferenças entre as “velhas” ditaduras controladoras da liberdade individual (fascismos ou comunismos) e as novas Democracias que acabam por controlá-las ainda mais, embora de forma muito mais subtil (mas igualmente eficaz). E este é também um dos motivos por que em muitos países tem havido crescimentos fortes da Direita mais radical. É que as pessoas já se vão apercebendo do fenómeno.

  7. Comparando com o tempo de Salazar).É certo que no anterior Regime não havia algumas liberdades que hoje há. Porém, também não havia a rigorosa espionagem das facturas electrónicas; ou dos radares nas estradas; ou testes de alcoolémia; nem havia portagens; nem parcómetros; nem vídeo-vigilância em todas as esquinas (aliás também não era precisa, pois a criminalidade e o tráfico de droga eram diminutos); p. ex., toda a gente dava boleia de carro a estranhos, sem daí advir qualquer perigo. E não havia geo-localização, hoje proporcionada pelos telemóveis ou GPS.

  8. As “redes sociais” podem levar ao fim da Democracia).Em 1.º lugar pelo que já disse atrás (em 4, 5 e 6). Depois, porque as redes sociais interferem com a Política: já facilitaram revoltas (Ucrânia, Egipto, Líbia, Tunísia); ou vitórias eleitorais (Trump, nos EUA). O Estado, democrático ou não, pode mesmo vir a acabar com elas, agora para sua própria defesa. E não nos devemos esquecer que, de repente, tudo quanto aparece nos frágeis écrans pode um dia desaparecer: umas vezes são meros “apagões” (que nos dão fundadas saudades do “tempo do papel”); outras, mais sérias, terão lugar quando algum Poder Político futuro quiser mesmo “acabar com a coisa”.



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