Espaço do Diário do Minho

Educação permanente
18 Mar 2019
Paulo Fafe

Houve em tempos de Salazar uma direção-geral que se denominava de Educação Permanente. O seu objetivo era, como o título indica, proporcionar aos portugueses um apoio permanente para lá da escolaridade, um encontro permanente com a educação, quer através da criação de bibliotecas escolares, quer fornecendo livros às já existentes, quer levando através dos audiovisuais, como o cinema e projeção de slides; faziam-se palestras à população sobre vacinação, economia doméstica, exploração de intermediários no escoamento de produtos agrícolas, principalmente na pecuária, patrocinava-se aquisição instrumental às filarmónicas e dava-se apoio a cursos de ensino de adultos.

Era uma intervenção feita no terreno, por professores destacados, os encarregados da missão cultural. Eram dias em que tanto as escolas do ensino primário, como as populações, acolhiam os delegados com satisfação e até com alegria por vezes exuberante. Estou a falar disto com pleno conhecimento da verdade porque fiz parte dessa estrutura, estrutura que depois do 25 de Abril de 1974 foi considerada fascista e retirada do terreno de ação.

Esses delegados de educação permanente fizeram um levantamento de existência das localidades, freguesia a freguesia, com todos os pormenores desde as estruturas logísticas, meios de comunicação, veios de água explorados ou a explorar, gravavam canções e usos locais em profusão. Mas o material que existia nessa direção-geral de educação permanente foi absorvido pelas campanhas de politização do exército ao serviço da revolução de 1974 e , segundo me informaram, simplesmente desapareceu e foi parar algures sem dono nem préstimo.

Falo nisto porque tirei dessa experiência alguma comparação com o presente; parece que presentemente todos nós nos sentimos necessitados duma educação permanente no que diz respeito às novas tecnologias que nos estão a atirar para o analfabetismo tecnológico. As inovações são constantes, quer quanto a funcionalidades, quer quanto a utilidades dessas tecnologias.

Quando vou à CGD, apenas velhos estão lá porque os mais novos já usam MB ou o IPHONE para transferir dinheiros ou consultar as suas contas.. Mas não são apenas estes velhos que estão a ficar técnico-analfabetos; são também os jovens ou melhor dizendo, os mais jovens, aqueles que tratam por tu as novas tecnologias de hoje e desconhecem completamente quem foram os nossos descobridores, quem lutou pela liberdade em 25 de Abril de 74, quem viajou à volta do mundo, ou quem chegou à Índia.

A história de Portugal que fez dos mais velhos um nacionalismo indiscutível de paixão pátrio, está a perder-se por analfabetismo histórico: perguntem a um estudante de 12.º ano onde nasce o rio que banha a cidade do Porto, ou onde vai desaguar o Mondego.

Verifica-se o défice de cultura geral em concursos nas televisões, que dá para pensarmos que estamos a lidar com uma geração que só sabe teclar e, por isso, lhe vai faltando discurso, isto é, não têm conversa sobre nada porque não sabem nada de coisa nenhuma, a não ser teclar.

Ouvi uma conversa entre um aluno universitário e uma fisioterapeuta. O aluno perguntava se a Venezuela ficava no continente africano! Que respostas têm os “pedagogos” para esta ignorância? Ou são coisas que o analfabetismo tece?



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