Espaço do Diário do Minho

O monopólio do coração
16 Mar 2019
Manuel Antunes da Cunha

Em França, o episódio ficou célebre. A 10 de Maio de 1974, num debate televisivo entre candidatos à presidência da República, o socialista François Mitterrand defendia uma mais justa repartição das riquezas, “uma questão de inteligência, mas também de coração”. A resposta de Valéry Giscard d’Estaing ficou para a história: “Antes de mais, considero ofensivo arrogar-se o monopólio do coração. Não tem, Mr. Mitterrand, o monopólio do coração!” Numa obra autobiográfica (Le Pouvoir et la Vie, 1998), Giscard d’Estaing considera ter ganho as eleições nesse preciso instante. Ninguém pode assegurar que assim seja. Certo é que o açambarcamento de causas nobres e/ou o recurso aos media constituem estratégias recorrentes na hora de delimitar um território e uma legitimidade no espaço público.

A Igreja Católica encontra-se hoje a viver um processo de profunda reconfiguração. No início do mês, foram apresentadas pela editora Seuil duas obras sobre o catolicismo em França: L’archipel français e Une contre-révoluton catholique, respetivamente da autoria de Jérôme Fourquet (especialista de estudos de opinião) e de Yann Raison du Cleuziou (politólogo). Entrevistados pelo jornal La Croix(07/03/19), os autores analisam o actual contexto de secularização e de declínio da prática religiosa. Há dias, a última edição do Anuário estatístico da Igrejarevelava que, entre 2016 e 2017, embora se tenha registado um ligeiro aumento do número de católicos no mundo (+ 1,1%, num total de 1 313 milhões de fiéis), quase metade vivem no continente americano e menos de um quarto na Europa (21,8%). Assinalava ainda um decréscimo do número de sacerdotes diocesanos, religiosas e seminaristas, embora a situação seja bem diferente segundo os continentes.

Em França, os católicos são já uma minoria constituída por sensibilidades diversas, que Fourquet apelida de “arquipélago” sociocultural. Todavia, são aqueles que De Cleuziou rotula como “observantes” – os mais conservadores, cerca de 30% dos católicos – os mais visíveis no espaço público (manifestações, envolvimento político e mediático). Procuram afirmar-se como um contrapoder ao laicismo. Essa franja tem vindo a organizar-se, desde os anos 70, à margem das instituições diocesanas e da pastoral pós-conciliar. Por outro lado, muitas missas dominicais já são quase só são frequentadas por reformados e/ou imigrantes, populações bem mais invisíveis e inaudíveis. Uma parte desses fiéis afirma-se contra algumas das mudanças sociais em curso, enquanto outra acompanha tais movimentos da opinião publica sem estar sempre plenamente convencida, nem preparada para o debate.

O certo é que, mesmo em fase de declínio, o catolicismo continua no centro da agenda política. Por um lado, as forças mais à direita do espectro partidário procuram apoderar-se de alguns símbolos religiosos (cruz, presépio, etc.), tradições e práticas para reafirmar uma norma e uma herança cultural maioritária que muito agrada aos movimentos mais populistas. Por outro, os partidos mais à esquerda reivindicam cada vez mais uma legitimidade quase exclusiva para intervir em questões do foro ético e na protecção das populações mais vulneráveis, tirando partido do agendamento mediático em torno de alguns escândalos que têm vindo a abalar a Igreja (pedofilia, homossexualidade, violações de religiosas, etc.).

Os momentos de crise são oportunidades para discernir motivações e, quando necessário, alterar práticas. Enquanto católicos não temos o monopólio da razão e muito menos o do coração, mas isso é válido para qualquer outra organização e/ou personalidade. Temos sim o dever de contribuir para a renovação de uma Igreja que é plural, embora seja cada vez mais mediaticamente retratada – de forma redutora – a partir da sua franja mais conservadora. Não nos cabe entrar em cruzadas contra um conjunto de “inimigos”, até porque nas guerras não há vencedores. Cabe-nos sim assumir um papel ainda mais activo no espaço público em prol de uma sociedade mais justa e solidária.



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