Espaço do Diário do Minho

Via-Sacra
14 Mar 2019
Silva Araújo

1.Muito particularmente na Quaresma, embora se possa fazer durante todo o ano, especialmente à sexta-feira, realiza-se a Via-Sacra.

O Manual das Indulgências define-a como «piedoso exercício» que «recorda as dores que o divino Redentor sofreu no itinerário desde o pretório de Pilatos, onde foi condenado à morte, até ao monte Calvário, onde por nossa salvação morreu na cruz».

Consiste, essencialmente, em evocar com a memória, para deduzir piedosos afetos e tomar algumas resoluções práticas, catorze cenas diversas da Paixão do Redentor.

2.Uma tradição que remonta ao século V apresenta Nossa Senhora percorrendo, todos os dias, os lugares onde Jesus havia sofrido, chorado e derramado o Seu Sangue. Diz a mesma tradição que a Virgem se detinha na recordação de cada episódio, beijava o chão e pronunciava fervorosas orações.

A peregrina espanhola Etéria, no  Itinerarium ad loca sancta, que redigiu para consolo de suas irmãs, as freiras da Galiza, ao descrever as funções sagradas de Quinta e Sexta-Feira Santa relata como os fiéis, presididos pelo bispo e os sacerdotes, percorriam todos os lugares santificados pelas dores e sangue do Salvador, particularmente as ruas de Jerusalém e o caminho que levava até ao Calvário.

3.Nem todos podiam ir a Jerusalém percorrer os caminhos santificados pela presença de Jesus. Para que, em espírito, se pudesse fazer tal peregrinação, levantaram-se, em diversos lugares, edifícios religiosos semelhantes aos de Jerusalém e colocaram-se, nas igrejas e oratórios, quadros apropriados, representando a caminhada do Redentor para o Calvário.

Para facilitar a meditação desta romagem espiritual compuseram-se livros de devoção para uso dos fiéis. Um dos principais, «Peregrinação Espiritual», de Jan Pascha, no século XVI (1563), fixou as catorze estações que vigoraram até 1991.

A ereção das Estações da Via-Sacra nas igrejas, como a vemos hoje, só se generalizou nos fins do século XVII, quando Inocêncio XI concedeu especiais indulgências aos fiéis que fizessem este piedoso exercício, acompanhando, em espírito, Jesus Cristo com a Sua Cruz, do Pretório ao Calvário.

4.Tradicionalmente a Via-Sacra é constituída por 14 estações:

1.ª Jesus condenado à morte. 2.ª Jesus com a cruz às costas. 3.ª Primeira queda. 4.ª Jesus encontra Sua Mãe. 5.ª Jesus ajudado pelo Cireneu. 6.ª A Verónica limpa o rosto de Jesus. 7.ª Segunda queda. 8.ª Jesus consola as mulheres de Jerusalém. 9.ª Jesus cai pela terceira vez. 10.ª Jesus despido e bebendo fel. 11.ª Jesus pregado na cruz. 12.ª Jesus morre na cruz.13.ª Jesus nos braços de Sua Mãe. 14.ª Jesus no sepulcro.

5.Na Sexta-Feira Santa de 1991 o Papa João Paulo II propôs um novo itinerário da Via-Sacra, percorrendo apenas as estações que constam explicitamente dos evangelhos.

Sem que as pessoas fiquem impedidas de continuarem a fazer a Via-Sacra costumada, onde há episódios que têm a sua origem numa piedosa tradição, o Santo Padre meditou as seguintes catorze estações, que o mestre das celebrações litúrgicas do Papa disse constituírem uma alternativa: 1.ª Jesus no horto das oliveiras (nova). 2.ª Jesus atraiçoado por Judas e preso (nova). 3.ª Jesus condenado pelo Sinédrio (nova). 4.ª Jesus negado por Pedro (nova). 5.ª Jesus julgado por Pilatos (era a 1.ª). 6.ª Jesus flagelado e coroado de espinhos (nova). 7.ª Jesus transporta a cruz (era a 2.ª). 8.ª Jesus ajudado pelo Cireneu (era a 5.ª). 9.ª Jesus encontra as mulheres de Jerusalém (era a 8.ª). 10.ª Jesus crucificado (era a 11.ª). 11.ª Jesus promete o reino ao bom ladrão (nova). 12.ª Jesus crucificado (nova). 13.ª Jesus morre na cruz (era a 12.ª). 14.ª Jesus é sepultado (igual).

6.Quem fizer a Via-Sacra pode ganhar uma indulgência plenária (Manual das Indulgências, pag. 57). Esta liberta totalmente da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa (Idem, pag. 21).

O mesmo Manual indica as condições que deve observar quem pretender ganhar a referida indulgência. Não as reproduzo aqui para me não alongar.



Mais de Silva Araújo

Silva Araújo - 6 Jun 2019

1.A Conferência Episcopal Portuguesa publicou, com data de 02 de maio de 2019, duas cartas pastorais. São, em minha opinião, dois documentos muito oportunos, merecedores de ampla divulgação e estudo. 2.Um deles, «A alegria do amor no matrimónio cristão», diz respeito, particularmente, aos casais e aos solteiros que pensam unir-se em matrimónio. Ajuda a refletir sobre […]

Silva Araújo - 30 Mai 2019

1. Acreditar. No quê e em quem? Talvez pareça atrevida, mas é uma pergunta a fazer. Hoje, mais que nunca. Impõe-se o uso do sentido crítico perante o que vemos, ouvimos e lemos. Que possamos e saibamos discernir entre o verdadeiro e o falso. Que nos apercebamos da existência de bem montadas máquinas de propaganda […]

Silva Araújo - 23 Mai 2019

1. A igualdade é uma palavra repetida com frequência. E a verdade é que somos todos iguais. Não é necessário invocar o artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa onde se afirma que «ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, […]


Scroll Up