Espaço do Diário do Minho

Fontes da verdade
11 Mar 2019
Narciso Mendes

Um dia destes, em que deambulava pela nossa Bracara Augusta, deparei-me com um sujeito que transportava um molho de jornais debaixo do braço. O que levou a questionar-me se, porventura, teriam voltado ao nosso quotidiano os “ardinas” de antigamente. Mas logo desfiz a minha curiosidade, dado não ouvir qualquer pregão nem ver ser cobrado qualquer euro ou cêntimo pelo jornal apercebendo-me, também, de que entrava nas lojas comerciais para por lá deixar um exemplar. E como me tinha apercebido de que era à borla, fiz questão de ficar com um para ver de que se tratava. Sem mais demoras, olhei o título e li: “A Verdade das Sete Fontes”. 

Tratava-se de um puro desabafo de alguém indignado com o que se passa à volta dos terrenos daquele futuro Ecoparque em que uma empresa imobiliária, proprietária de alguns deles situados junto daquele monumento histórico, denunciava a falta de diálogo e resposta aos requerimentos apresentados à Câmara Municipal de Braga (CMB) e ao seu vereador do Urbanismo. Demonstrando, ao mesmo tempo, indignação por esta entidade pública oferecer, por eles, 10€ o metro quadrado. O que considerava uma afronta, embora aquela publicação, como informava, não ser contra ninguém, mas pela verdade. Pois, como estava escrito, a empresa nunca alimentou guerras nem conflitos com as organizações do poder bracarense, nomeadamente o poder municipal. Ainda que – no processo das Sete Fontes – considerem ter sido ultrapassados todos os limites da decência e do bom senso. 

Ora, verdade verdadinha seja dita, se a CMB tem andado a ver se consegue terrenos para o futuro Ecoparque a título pouco oneroso para a sua tesouraria, dados ao parcos recursos financeiros, o que é legítimo, também os donos dos terrenos que constrangem aquele monumento andam a ver se conseguem, à boleia, um Ecoparque que venha a valorizar o edificado que lá pretendem implantar, o que não é menos legítimo. Só que se estes conseguirem levar por diante os seus intentos de construção, o tal monumental Ecoparque passará a ser um “carapau” de entre os “tubarões” que travam esta luta. Nessa altura, as Sete Fontes deixarão de ser um local onde as pessoas se dispersem, ou se juntem, para passar a ser um aglomerado de gente, animais e bicicletas em zona, praticamente, urbana.

Se há verdade que deva ser dita, é que o executivo camarário anterior não nutria qualquer simpatia pelas Sete Fontes e que se ainda estivesse no poder – a esta hora – já estaria não só tudo construído como também as atravessariam uma variante rodoviária que golpearia toda aquela zona. Aliás, como se pode verificar com muitas urbanizações, na cidade, que geraram autênticos guetos onde não ficou um m2 de terreno por construir.

E se há alguma verdade, nisto tudo, é que as expetativas dos proprietários dos terrenos são as de conseguirem que a CMB lhes pague um valor entre os 80 e os 120 € o m2, o que a mesma rejeita. Daí, as cautelas do Município e o contra-ataque de que vai tentar junto do Ministério da Saúde a cedência, em regime de concessão, de 8,9 hectares em terrenos que não venham a ser úteis à expansão do Hospital, os quais satisfariam não só os interesses da cidade como também facilitariam a amplitude que o Ecoparque merece. 

Se algum pingo de verdade há em toda esta história, é que o «dossier» Sete Fontes faz parte de uma das promessas eleitorais do Dr. Ricardo Rio que está por concretizar. Contudo – por se tratar de cidadãos da nossa Bracara Augusta – terá que negociar e ver o melhor processo de poder chegar a um acordo satisfatório para ambas as partes.

É que jornais, como o que recebi, fazem deste executivo camarário o mau da fita, prejudicam a imagem da CMB, da cidade e das suas gentes e embebem a opinião pública em discussões estéreis. E se Braga quer construir um dos maiores Ecoparques do país, a CMB não tem outra alternativa se não a de chamar a si os proprietários para que, com diálogo e sentido de justiça, tudo se resolva definitivamente.



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