Espaço do Diário do Minho

Em dinâmica de Quaresma
11 Mar 2019
António Sílvio Couto

Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco resume, duma forma clara, sucinta e incisiva como devemos viver, de forma renovada, as três dimensões centrais deste tempo favorável de graça pessoal, familiar e eclesial:

«A Quaresma é sinal sacramental da conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola. Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade».

Embora cada um de nós possa deixar-se dinamizar por aspetos mais ou menos pessoais ou individuais, encontramos nas linhas da mensagem papal ideias-força que devem colocar-nos numa vivência referencial com os desafios de toda a Igreja e na Igreja toda.

De facto, não deixa de se revelador desse centralismo narcisista reinante que, hoje, o jejum seja um tanto visto como algo condicionador da nossa liberdade para fazer o que nos apetece, mas, por outro lado, se cumpram programas de emagrecimento, desde que isso possa vir a repercutir-se na boa figura, na pretensa imagem e na razoável impressão que se dá através da dimensão do corpo. À subtileza da abundância como que contrapomos a ditadura da esbelteza, como se esta fosse uma nova dose de viver das aparências e de possamos contentar-nos com o que outros dizem de nós nas redes sociais.

Pelo contrário, o jejum é (ou deve ser) uma aprendizagem sobre o domínio a que devemos submeter a nossa condição de comunhão com quem não tem o suficiente para comer e, em sintonia com esses, tentar viver a minha privação de alimento – ou de algo que nos possa fazer viver dependente – para sentir por algum tempo o que para outros é condição permanente… de privação não-escolhida, embora aceite.

Na oração encontramos o alimento da nossa vida cristã, seja qual for o compromisso vocacional ou de consciência em Igreja. Com efeito, enraizada na Palavra de Deus, a oração é uma necessidade e não uma obrigação religiosa e nem os ritos tradicionais – como a via-sacra, as procissões penitenciais ou dos Passos – podem fazer-nos condicionamento, mas antes poderão ser sinais para acertarmos a nossa vivência com a imensa multidão de outros que se exercitam em tempo quaresmal como nós. Se há tempo espiritual que deve viver ritmado pela misericórdia é a quaresma, tanto a divina como a humana. Na sua mensagem o Papa traçava as etapas desta vivência: arrependimento-conversão-perdão… recebido e dado. 

Neste ano litúrgico do ‘ciclo C’, tendo por base o evangelho segundo São Lucas, talvez possa ser útil acertarmos um programa de leitura diária da Palavra de Deus com base neste evangelista.

Por último, encontramos a vertente da esmola, que, no contexto quaresmal, se reveste de uma outra tonalidade: a renúncia quaresmal. Se devemos estar sempre atentos às necessidades dos outros e com eles partilharmos não meramente o que nos sobra, mas o que lhes faz falta, tanto mais na Quaresma devemos atender aos desafios que a nossa diocese nos apresenta para sabermos partilhar com quem possa precisar da nossa ajuda organizada, simples, e por vezes, anónima, mas comunitária.

Talvez não seja exagerado seguirmos o que, na sua sábia condução, a Igreja nos propõe: um dia de salário para a nossa renúncia quaresmal. À semelhança do espírito que enforma a vivência do jejum, assim através da renúncia quaresmal devemos facultar aos outros aquilo que nos foi concedido como dom ou bênção nas coisas materiais: a experiência do desapego dos ‘nossos’ bens poderá atenuar as necessidades do essencial para outros, que podemos nem conhecer. 

Jejum, oração e esmola: três pilares da caminhada da Quaresma. Que sejamos assim dinamizados, este ano.



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