Espaço do Diário do Minho

É preciso não esquecer
11 Mar 2019
Paulo Fafe

Vi, espantei e sofri; espantei de boca aberta pela incredulidade e sofri pela desilusão nos homens responsáveis pelos acontecimentos pós-incêndios de 2017, em Pedrógão Grande. A reportagem da TVI foi uma denúncia pública de tal maneira escandalosa, que é impossível que a Procuradoria-Geral da República lhe possa ficar indiferente.

Há personalidades acusadas de negligências várias: falta de segurança no local de recolha, ausência de entrada e saída de bens doados, falta de controlo e inventariação na distribuição; há suspeitas de posse ou retenção de dinheiros, inclusivamente desconhecendo-se o seu paradeiro, há alegados favorecimentos em restauros de casas, assistimos a uma dispensa de funções de uma responsável da Cruz Vermelha numa exaltação e uma prepotência dignas de um ditador.

E falaram, alguns, de terem tido conversas com o Presidente da República que, afinal, não se confirmaram, e disseram ter contactos com o primeiro-ministro que desmentiu; uma miscelânea de mentiras que qualificá-las seria procurar uma abjeção. A que degradação de alma chegaram para consentirem a si mesmos estes comportamentos?

Aquilo que foi doado pela generosidade dos portugueses, pertence por inteiro aos necessitados e, quando se faz a distribuição de uma coisa doada, não passa de um simples ato distributivo. Aquilo não é deles, aquilo já nem sequer é da generosidade porque, esta, dá com a mão direita sem a esquerda saber; aquilo pertence por direito, e por inteiro, aos necessitados, únicos destinatários das ofertas.

Como é possível que ainda haja quem espere por uma cama, por uma cómoda, ou um simples espelho, quando em armazém há mobílias e colchões novos?! Há quartos por mobilar? Incríveis foram as imagens que vimos: um funcionário da Câmara de Pedrógão Grande ameaçou a reportagem da TVI e exprimiu-se em palavrões e gestos de um arruaceiro; vimos a jornalista da TVI ser impedida de fazer o seu serviço por um assessor do primeiro-ministro António Costa; tirou à jornalista o seu direito de interrogar! Mas isto já vai assim? Mas que ditadura é esta? Vimos um camião ser carregado de sacos enormes, alegadamente eram coisas doadas; vimos um camião cheio até bem acima, de colchões que pareciam novos.

Tantos colchões embalados em plásticos, e ainda há quem não tenha nenhum para o seu quarto! Daí a boca aberta e depois desilusão produzida por ver pessoas que julgava acima de quaisquer suspeita, serem envolvidas neste processo de Pedrógão Grande. Que indignidade e que degradação de caráter! Falamos do dr. Francisco George que conhecíamos de diretor-geral da saúde. Que farronca foi aquela ao despedir em direto uma sua colaboradora, daquele encargo? Hoje é presidente da Cruz Vermelha Portuguesa.

Merece este lugar? Falamos de Valdemar Alves, presidente da câmara de Pedrógão Grande que conhecíamos das suas aparições ao lado do Sr. Presidente Marcelo, nas horas amargas dos incêndios: faces contritas e de olhos magoados. Que abraço de consolo lhe deu, então, o Sr. Presidente Marcelo! Mas então era mentira a sua dor?

A dor, que vimos estampados nesses esgares de sofrimento, era apenas a máscara duma tragédia grega, isto é, uma representação? Essa dor, ou tem representação na distribuição de bens doados, ou é uma mentira. Um dia um diretor duma grande empresa escolheu um substituto; quando lhe perguntaram o porquê da escolha, ele respondeu: conheci-o na abastança e manteve-se honesto. Os frutos nunca negam as raízes. É preciso lembrar ao Ministério Público que esta reportagem não é para esquecer.



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