Espaço do Diário do Minho

Tesouro em vasos de barro… (missiva despretensiosa ao Papa Francisco)
4 Mar 2019
António Sílvio Couto

Ao querido Papa Francisco,

que tanto tem feito, nestes quase seis anos de pontificado,

para que a Igreja se possa tornar mais e melhor sinal da presença de Cristo no mundo,

ouso escrever um sofrido desabafo, que é muito mais do que um mero suspiro desencantado!

No seguimento daquilo que Bento XVI vinha fazendo, o santo Padre tem enfrentado variados obstáculos quanto ao escândalo dos ‘abusos sexuais’ de alguns membros do clero… em muitas partes do mundo.

A catadupa de casos fez do Vaticano uma nova espécie de ‘muro das lamentações’,

sobretudo das vítimas individuais ou agrupadas em associações ao longo da universalidade da Igreja.

O mais recente momento da ‘cimeira’ sobre o assunto, realizada por estes dias, trouxe, novamente, à ribalta acusações, impropérios e suspeitas quase desmesuradas.

= Santo Padre, por breves, momentos senti que todos os padres – os prevaricadores e os não-acusados – estavam sob a inexorável espada de Dâmocles sobre as suas cabeças, na medida em que cada um é um potencial acusado… e ninguém – ao que parece – é insuspeito.

Ora, isto é assaz perigoso, pois se pode confundir réu e vítima, tornando-se esta um potencial criador de acusados, senão no conteúdo ao menos na forma…

= Santo Padre,

há muitos padres que sofrem e rezam para que esta vaga de pecado dentro e fora da Igreja

seja vencida pela força do testemunho.

Com efeito, muitos padres procuram viver a sua entrega a Deus, na Igreja;

muitos – senão a maioria – fazem esforço de fidelidade em serem presença divina neste mundo erotizado;

tantos e tantos viveram a sua juventude e idade adulta numa atitude de missão – não de meros castrados,

mas de celibatários pelo Reino de Deus – nem sempre compreendida por todos os que procuraram servir;

por isso, é uma provação e purificação para uma multidão silenciosa de padres verem postos em causa os anos de formação, de encanto e de serviço, pela simples razão de que uns poucos praticaram crimes lesivos de tantas crianças, adolescentes e jovens… ontem, lidos no hoje e repercutindo-se no amanhã.

= Santo Padre,

lemos, escutamos e aceitamos os ’21 pontos de reflexão’ propostos aos participantes no encontro sobre ‘proteção de menores’;

acolhemos como força de definição os 8 pontos da linha de ação para a Igreja católica, que nos foram apresentados após aquela cimeira.

No entanto, deixamos, com humildade e confiança, uma sugestão, tirada dos textos bíblicos. Diz-nos São Paulo – trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério (2 Cor 4,7). De verdade sabemos que esta constatação nos faz acreditar que o dom do sacerdócio ministerial é mesmo uma dádiva divina, aceitando, discernindo e vigiando para que o mal não nos seduza… nunca e tão pouco nas horas de crise!

Por outro lado, recordamos essa passagem tão simbólica do pastor que vai à procura da ovelha que anda dispersa… Só que hoje não é uma, mas noventa e nove, as que se transviaram…

E muitos deles poderão ser padres, ofendidos, maltratados e escorraçados por intransigências de muitos dos seus responsáveis… sem esquecer as (in)suspeitas do que possam contatar com algum dos padres.

= Santo Padre,

os que não pecaram – nisto que tem ocupado tanto o foco da Igreja, embora sejam sempre pecadores – precisam de ser acarinhados, para que não se tornem vítimas de discriminação como o foram os ‘abusos’,

que tanto reclamam da Igreja católica.

Na humildade de padre há quase trinta e seis anos, Santo Padre, que a Verdade nos liberte e nos guie, na fidelidade a Deus nesta Igreja que amo e sirvo… neste tempo e contexto terreno!



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