Espaço do Diário do Minho

Preconceito
4 Mar 2019
Paulo Fafe

Como o termo explica, preconceito quer dizer que há um conceito prévio ou já definitivamente concebido para determinado fim. Pré significa, assim, antes. Quando se diz que a esquerda tem preconceitos sobre o capitalismo, a propriedade privada e o desempenho de outrem sem ser o estado, dizemos que a esquerda é preconceituosa, diz-se e é verdade.

Quando se diz que a direita tem preconceito sobre o estatal ou coletivismo, quer dizer-se que esta direita desejaria ver desaparecer o estado como patrão e a propriedade deveria ser toda ou quase toda de privados. Diz-se e é verdade.

Estes dois conceitos têm raízes muito profundas, embora o da esquerda tenha obtido notoriedade com Engels, Marx, Lenine, Proudhon e prosélitos, e o direito à propriedade privada remonta a idades do aparecimento do homem sobre a terra.

Há quem diga que a propriedade privada começou no momento em que um homem começou a ser recoletor e disse, estas sementes são minhas, ou quando cravou na terra uma paliçada e declarou, daqui para ali, é meu. Este desejo de propriedade é assim um desejo natural de posse, e é tão natural em qualquer um de nós, que só uma distorção forçada desta naturalidade pode transformar a propriedade particular em propriedade de estado.

A igualdade não existe a não ser forçada porque a tendência natural é ser diferente como é o pensamento de cada um. Coloca-nos esta reflexão na mudança da constituição cubana, permitindo a propriedade privada! Veremos até que limites, isto é, se vai permitir o capital privado, se vai permitir o investimento sem limites, se vai deixar que a tão apregoada sociedade sem classes se transforme numa sociedade de ricos, pobres e classe média.

Se tal vier a acontecer os cubanos enterram duma vez Fidel Castro e, com ele, tudo por que ele lutou ideologicamente, desde a Serra Nevada. Os cubanos não têm nada, não têm economia, não têm uma rede privada de medicina, nem bancos, nem fábricas, nem armazéns, nem estabelecimentos comerciais; não têm nada que não seja do estado e por ele controlado; é, aliás, a práxis de estado marxista.

Estamos curiosos, se não mesmo ansiosos, por ver até que ponto os castristas permitirão que se estabeleça na ilha um sistema misto de estado e privados! E como vão conviver com os “capitalistas” investidores? E como vão resolver o caso dos financiamentos para instalação da propriedade privada? Estamos expectantes, é verdade, mas cheira-nos a promessa de uma coisa mais profunda.

Cheira-nos que a conceção de “torradeira”, isto é, o passo pequeno para a propriedade privada, foi o passo pequeno que agora permite dar o passo seguinte. Para o estabelecimento e desenvolvimento dum país de mercado, de economia concorrencial, seria coisa que se transformaria em heresia, aqueles que ainda usam a boina de Che Guevara.

É preciso manter o preconceito socialista revolucionário, para não deixar frustrados os que ainda acreditam na revolução do proletariado. Julgo que não é mais do que isto. Penso, então, que vai continuar em Cuba uma ditadura de partido único, mas que permite um sistema capitalista. Tudo correrá bem em Cuba, desde que não contestem o poder.

Um regime à Putin que abriu a Rússia ao capitalismo e dele deixa usufruir como num sistema capitalista. O velho preconceito que se tornou ideologia cai como fruto maduro se desprende da árvore onde nasceu.



Mais de Paulo Fafe

Paulo Fafe - 17 Jun 2019

Não querem uma grande abstenção nas eleições legislativas de Outubro? Muito simples: (i) Sejam sérios, falem verdade ao povo e acima de tudo falem das questões das pessoas em vez de se refugiarem num discurso de bota abaixo ou ir buscar ao passado assuntos bolorentos que já não lembram ao diabo.(ii) Matem a demagogia, isto […]

Paulo Fafe - 10 Jun 2019

Anda por aí no ar, assim como quem não quer a coisa mas morta que aconteça, uma ideia de apropriação de casas devolutas, a bem dum bem maior que é alojamento para os que não têm casa para habitar ou, tendo-a na sua aldeia, não a têm em Lisboa, Porto ou Braga, por exemplo. Ora […]

Paulo Fafe - 27 Mai 2019

As eleições europeias morreram, viva as eleições legislativas: Como se diz em Françacom a icónica frase, “o rei morreu, viva o rei”, ou, como se diz cá em bom português, rei morto, rei posto. A campanha para as eleições nacionais legislativas não começa agora porque na verdade ela começou nas europeias. A abstenção nas europeias […]


Scroll Up